terça-feira, 7 de maio de 2013

DOUTRINA HOMEOPÁTICA



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PRIMEIRA PARTE DO CURSO DE HOMEOPATIA

DOUTRINA HOMEOPÁTICA




NASCIMENTO DA HOMEOPATIA

Hahnemann, nasceu em Meissen a 10 de Abril de 1755, tendo-se formado em medicina no ano de 1779, profissão que exerceu durante vários anos.
Traduziu e publicou diversas obras, que constituíram uma inestimável contribuição para a literatura médica da época, destacando-se o seu dicionário farmacêutico.

Considerando inaceitáveis os métodos e a inoperância da medicina clínica[1], abandonou a sua prática em 1789, dedicando-se a traduzir obras médicas estrangeiras.
Em 1790, quando traduzia a matéria médica de Cullen, faz a descoberta que o transformou no fundador da homeopatia.
Cullen afirmava que a Cinchona officinalis Quina – tinha propriedades tonificantes sobre o estômago, o que contrariava a experiência de Hahnemann, já que, quando adoeceu de paludismo havia experimentado – devido à sua ingestão – alguns dos sintomas característicos da gastrite. Desta forma, passou a auto-ministrar diariamente certa dose dessa planta – medicamento –, começando a sentir um quadro sintomático que compreendia: tremores, sede, acessos de febre, palpitações; enfim, todos os sintomas característicos das febres intermitentes. Considerando a sua própria experiência, anotou na margem da mencionada obra a frase: “Substâncias que provocam uma espécie de febre, podem curar a febre”. Com ela, lançou os alicerces da nova medicina e do seu princípio fundamental: Os semelhantes são tratados pelos semelhantes.
Desta premissa, partiu para a experimentação de outras substâncias com resultados terapêuticos confirmados, como o arsénico, obtendo o mesmo tipo de resposta às questões que levantava. Concluiu então, que um paciente deve ser tratado com a substância capaz de produzir em qualquer organismo são, um quadro sintomático idêntico ao por si apresentado.
Deste modo, Hahneman determina exaustivamente o maior número de sintomas decorrentes da intoxicação provocada pela administração continuada duma dada substância[2].
O conjunto de sinais e sintomas obtido é designado por Patogenesia da Substância.

Após inúmeras experimentações, publicou em 1810, o “Organon da Ciência Médica Racional”, que a partir de 1819, data da 2ª edição, recebeu o título de “Organon da Arte de Curar”. Considera-se este, como sendo o livro basilar de todo o corpo teórico homeopático[3].
Até ao ano de 1839 publicou a “Matéria Médica Pura” e o “Tratado de Moléstias Crónicas”.

A homeopatia é utilizada praticamente em todo o mundo, existindo três escolas dominantes: Unicismo, Pluralismo e Complexismo. Embora as duas últimas Escolas resultem basicamente de toda a doutrina unicista – única Escola puramente Hahnemaniana –, a multitude de teorias aditadas aos conceitos básicos promoveu a sua adaptação aos princípios da Medicina Ortodoxa. Existe quem conteste esta distorção da real doutrina homeopática. De outra parte, defende-se a evolução necessária e inelutável da homeopatia em detrimento da perpetuação do purismo exacerbado, quase impraticável na actualidade[4]. Acreditamos, que em certa medida se podem equilibrar os pratos da balança, empregando os ensinamentos de uma ou outra Escola, em conformidade com a experiência clínica do terapeuta. De qualquer modo, frisamos que a nossa abordagem clínica é fundamentalmente Unicista[5].
Isto não quer dizer, que quer o pluralismo quer o complexismo, não conduzam a resultados favoráveis e entusiasmantes. São muitos os práticos que o atestam e pacientes que o confirmam.
As nossas escolhas, não podem ou devem em caso algum, manifestar intolerância e compreensão deficiente de atitudes terapêuticas diversas.


FUNDAMENTO DA HOMEOPATIA

A homeopatia fundamenta-se num trabalho de natureza científica com cerca de dois séculos, consequência das investigações efectuadas por inúmeros experimentadores que ingeriram substâncias em dose não letal e registaram meticulosamente os sintomas produzidos, e ainda de registos toxicológicos – quadros sintomáticos obtidos pela ingestão voluntária ou involuntária de substâncias, como o arsénico – e observação de curas clínicas.
Nascem assim as Matérias Médicas, que são numa definição simplista, registos de sintomas[6]. Veja-se a titulo exemplificativo a Matéria Médica Sintética constante da segunda parte deste livro.

Com o aumento incessante do número de medicamentos experimentados, face às limitações humanas no concernente à memória – é praticamente impossível um homeopata dominar cabalmente as muitas patogenesias descritas –, realizaram-se Repertórios, índices de sintomas, coligidos das Matérias Médicas ou da mesma forma que estas[7].
Com mais de 1000 medicamentos descritos nas Matérias Médicas, estas são forçosamente complementadas pelos Repertórios, que são índices de sinais e sintomas, organizados em capítulos, rubricas e sub-rubricas.

A medicina alopática[8] utiliza antídotos – a diarreia é tratada com um medicamento que produz obstipação –, enquanto que a homeopatia utiliza uma dose mínima da substância – de modo a que a sua toxicidade seja eliminada –, que provoca o mal que se pretende tratar[9].

A homeopatia enfrenta e assume o corpo na sua globalidade e os medicamentos têm a função de auxiliar o organismo na auto-cura, significando isto que se trata o semelhante pelo semelhante – do Grego “homos”/semelhante e “pathos”/sofrimento –.

São três os grandes princípios da doutrina homeopática: Similitude, Globalidade e Infinitesimalidade.


PRINCÍPIOS DA HOMEOPATIA


Princípio da Similitude

Foi Hipócrates, no séc. IV a.C., quem teorizou a partir da observação, que a cura pode ser provocada quer pela lei dos semelhantes quer pela dos contrários.
Hahnemann, na sequência da experimentação de diversas substâncias[10] e após ter descoberto que a quina, que destrói a febre, a provoca no indivíduo são, concretizou o princípio normalmente referido como “Similia Similibus Curantur”, ou seja, os semelhantes são curados pelos semelhantes.
Os sintomas de uma determinada doença são curados pela substância altamente diluída[11], que produz num corpo são, sintomas artificiais semelhantes aos da doença, quando administrada em dose ponderal[12]. Toda a substância capaz de provocar determinados sintomas num indivíduo são, faz com que estes desapareçam num organismo doente.
Não se trata de combater a doença com a própria doença, mas com algo que se comporta da mesma forma que ela.

O simillimum representa sempre a esperança de cura do paciente e é o medicamento onde os sintomas totais apresentados pelo doente encontram correspondência na respectiva patogenesia[13].
Este, pode denominar-se o simillimum perfeito.
- António, apresentou-se a uma consulta homeopática queixando-se de acessos de asma, que começam por volta da meia-noite e duram normalmente até às três horas da manhã.
Após interrogatório, manifestou ter um intenso medo da morte, principalmente quando está sozinho, que é mais evidente durante os acessos de asma e que agrava quase sempre entre a uma hora e as três horas da manhã. Tem medo de fantasmas, especialmente à noite, quando apaga a luz para dormir.
O seu estado psíquico sofre alterações bruscas: um dia está excitado e agitado, para no outro estar deprimido e melancólico. Estas modificações de humor surgem, por vezes, no mesmo dia.
Toma medicamentos que lhe foram receitados pelo seu médico de família, mas está convicto de que nunca o irão curar.
É um indivíduo magro, de face marcadamente angulosa e pálida.
Este é nitidamente um tipo Arsenicum Album, de similitude perfeita – veja-se na segunda parte, em sede de Matéria Médica, as características de Arsenicum Album.

Por vezes[14], apenas uma parte do quadro sintomático é encontrada na lista de sintomas do remédio mais adequado disponível na Matéria Médica.
- Beto tem sensações corporais estranhas. Por vezes sente-se desmaiar, o que faz com que se levante da cama ou da cadeira onde está sentado para caminhar. Sente palpitações intensas, que o levam a pensar que está à beira de um ataque cardíaco, facto que também o faz movimentar atabalhoadamente.
Fica apreensivo quando tem uma entrevista ou tem de participar em qualquer evento que o afaste de casa e do seu círculo de acção normal. Em determinadas alturas tem medo da morte e pensa que vai morrer. Chega mesmo a predizer o dia em que isso vai acontecer.
Tem medo de andar sozinho, de sair de casa, de multidões.
Tremores da língua e das pernas e dores de cabeça terríveis, sempre que trabalha mais intensamente. Fica aliviado quando a amarra fortemente com um pano.
A maioria dos sintomas pertence ao quadro de Gelsemium, mas estão presentes outros, nomeadamente, de Argentum Nitricum e Aconitum Napellus.
Segundo Hahnemann, este medicamento imperfeito ou simillimum possível, deverá ser utilizado na falta de um mais perfeito[15], sem prejuízo de posterior reavaliação do caso clínico.

A experiência demonstra que se a lei da similitude não for respeitada, os medicamentos homeopáticos são praticamente ineficazes.
A doutrina Hahnemaniana é, como já foi aludido, unicista, porquanto é utilizado um único remédio para a obtenção da cura, contrariamente ao que acontece com o pluralismo[16] e com o complexismo[17].
Um terapeuta pluralista, no caso de Beto, poderia receitar os três medicamentos: Gelsemium, Argentum Nitricum e Aconitum. Já um complexista, optaria por vários medicamentos complexos – para a prática do complexismo é de extrema importância o conhecimento do “Ordinatio Antihomotoxica et Materia Medica”, dos Laboratórios Heel, Alemanha, existindo uma versão espanhola.

Na perspectiva do unicismo não existem remédios equivalentes e portanto, não existem substitutos. Por outro lado, o homeopata não deve misturá-los, deixando à sorte a determinação do efeito a ser produzido no paciente[18].

O Repertório Homeopático, utilizado conjuntamente com a Matéria Médica Homeopática assistirá o homeopata na busca da substância cuja patogenesia se identifique mais com o quadro sintomático do paciente.
- Carlos tem uma pele muito seca e doentia. Estão constantemente a surgir erupções escamosas, em vários locais do corpo. Tem prurido, que agrava com o calor do leito.
É um idealista, cheio de teorias filosóficas, que julga inabaláveis.
Não gosta de tomar banho e quando o faz os seus padecimentos são agravados.
Tem diarreia, por volta das 5 horas da manhã, o que o obriga a ir urgentemente à casa de banho.
Utilizando o Repertório Homeopático Digital de Ariovaldo Ribeiro Filho, destacamos os seguintes sintomas – este procedimento só será entendido pelo leitor, quando se consagre ao estudo do Repertório e da Repertorização »
MENTAL – FILOSOFIA – devaneios filosóficos, grande inclinação a
MENTAL – LAVAR – aversão a lavar-se
RETO – DIARREIA – manhã – 5 h
PELE – ERUPÇÕES - ESCAMOSAS
PELE – PRURIDO – aquecer-se – cama, na
PELE – SECA
GENERALIDADES – BANHAR_SE, lavar-se –agr.

Os 12 primeiros resultados por cobertura foram:
1 – sulph.; 2 – phos.; 3 – calc.; 4 – rhus-t.; 5 – sep.; 6 – clem.; 7 – psor.; 8 – ant-c.; 9 – mez.; 10 – merc.; 11 – kali-c.; 12 – nat-m.
(Nos Repertórios Homeopáticos os medicamentos vêm citados por abreviaturas, devidamente identificadas nos inícios das obras).
Comparando os resultados com a Matéria Médica, chegamos à conclusão de que o simillimum é Sulfur – estamos novamente perante uma similitude perfeita. Repertório e Matéria Médica complementam-se na pesquisa do medicamento curador.

O simillimum tem um poder de cura quase extraordinário e podemos verificar que o doente lhe é extremamente sensível. Quanto mais perfeita for a similitude, como consequência da escolha criteriosa do medicamento, mais susceptível será o doente aos seus poderes curativos.

Princípio da Globalidade

A Homeopatia encara o ser humano[19] duma forma global e este é estudado na sua totalidade.
O homem é considerado em todas as suas vertentes. Ele é o medo, a tristeza, a ansiedade, a excitação sexual, a ausência de libido, a astenia e a fadiga, as relações laborais, familiares, sociais, os distúrbios de memória, cognitivos, o sono reparador ou não, a insónia, os sonhos, sensações, ilusões e delírios, a sede e o apetite, as febres, dores de cabeça, estômago, as lesões orgânicas, os transtornos funcionais, os transtornos e traumas recentes e/ou passados. Estes exemplos ambientam-nos na globalidade do nosso ser e consciencializam-nos para o facto de ser esta a totalidade que reage às agressões interiores ou externas. Encará-la como mera acumulação de partes isoladas é uma fuga à realidade com o intuito de facilitar a actividade terapêutica[20]. É também em função dela, que é prescrito o simillimum.
Em homeopatia não há doenças, só há doentes. Por isso, Hahnemann considerava uma verdadeira “heresia” afirmar que damos determinado remédio nesta ou naquela patologia[21], como a Ipeca ou a Drosera para a tosse, a Ignatia para a distonia neurovegetativa e  Lachesis para os distúrbios da menopausa. O que se cura é o paciente com tosse, com distonia neurovegetativa e com distúrbios menopáusicos e não a designação da doença. Praticar a homeopatia nesta última formulação é confundi-la por identificação de métodos, com a medicina alopática.

Considerando o homem no seu centro, digamos impropriamente, na sua essência, nos chamados sintomas da imaginação[22], biopatográficos ou etiológicos[23], mentais[24] e gerais[25], pode ocorrer que o medicamento escolhido, não tenha presente na sua patogenesia os sintomas locais[26]. Caso isto suceda, não constitui um óbice à aplicação do medicamento, visto que o remédio que cura o doente faculta o desaparecimento dos sinais e sintomas particulares.
O organismo funcionando como um todo[27], pela acção do simillimum[28], restabelece o seu próprio equilíbrio, caminhando pela vereda da saúde.

Princípio da Infinitesimalidade

A infinitesimalidade é um corolário directo e imediato da similitude.
Os medicamentos homeopáticos são essencialmente utilizados em doses de altas diluições, por duas razões fundamentais:

- As substâncias utilizadas em dose ponderal, podem nalguns casos apresentar um grau de toxicidade capaz de maior ou menor agressão ao organismo do paciente, pelo que, submetendo-as a diluições sucessivas anulamos os efeitos indesejáveis, enquanto a acção terapêutica se mantém;

- Quanto maior a diluição mais profundo e duradouro é o efeito do medicamento, e isto, desde que correctamente prescrito.

Hahnemann, para além de submeter as substâncias medicamentosas a sucessivas diluições, dinamizou-as por intermédio de uma agitação vigorosa e rítmica.
As principais doses altamente diluídas – hahnemanianas –, são as decimais e as centesimais[29].

Para a realização das sucessivas dinamizações, o prático ou o farmacêutico deve dispor de frascos novos, previamente lavados com água e secos posteriormente.
Tratando-se de tintura mãe ou substância líquida, coloca-se no primeiro frasco uma parte em peso daquela, completando-a com 99 partes de um veículo apropriado – água bidestilada e álcool a 38 ou 40º -, agitando-se vigorosamente cem vezes. Esta diluição, seguida de dinamização, constitui a primeira centesimal (1ª CH). 
Desta 1ª centesimal, deita-se 1 ml num outro frasco com 99 ml de excipiente. Agita-se igualmente 100 vezes e obtém-se a 2ª centesimal (2ª CH).
Este processo repete-se sucessivamente quantas vezes forem necessárias para produzir a potência desejada.
As decimais são obtidas pelo mesmo processo só que numa relação de 1/10.
No que às triturações respeita, a substância sólida é previamente reduzida a pó e triturada num almofariz, juntando-se-lhe lactose. A proporção das substâncias é calculada para que se obtenha uma 1ª centesimal ou decimal. A trituração é executada pelo menos durante vinte minutos. Para obter a 2ª centesimal ou decimal, junta-se uma parte do triturado com 99 ou 9 partes de lactose e procede-se a nova trituração. O mesmo, para a obtenção da 3ª centesimal.
De seguida, passa-se ao meio líquido, procedendo-se como atrás se mencionou, já que todos os produtos são solúveis a partir da 4ª centesimal.

O remédio homeopático é o resultado de um produto inicial submetido a diluições sucessivas, acompanhadas simultaneamente de agitação e ritmo[30].
Ocorre que, pelo menos teoricamente, entre a 9ª e a 12ª diluição centesimal hahnemaniana[31] se ultrapassa o número de Avogrado, ou seja, o medicamento deixa de possuir quaisquer moléculas da substância original. Assim sendo, alguma da comunidade científica não mostra quaisquer reservas na qualificação do medicamento homeopático como se de um verdadeiro placebo se trate, contrariando a experiência centenária de inúmeras gerações de práticos homeopatas.
Podemos dizer que até à 12ª CH coexistem as acções farmacológicas “molecular” e “energética”. A partir da 12ª CH, resta apenas a energética. Quanto mais dinamizamos um medicamento mais aumentamos a acção farmacológica energética. Quanto mais diluímos mais diminuímos a acção farmacológica molecular.

Madeleine Bastide e Frederic Boudard, procuraram demonstrar num trabalho denominado “Investigação Científica em Homeopatia”[32], que esta é uma verdadeira ciência face à eficácia real das doses infinitesimais, mesmo quando já não contêm moléculas da substância inicial. Os estudos tendentes a demonstrar que o medicamento homeopático não é um placebo, têm vindo a multiplicar-se com conclusões absolutamente favoráveis.
Não é por se desconhecerem os reais mecanismos pelos quais é veiculada a informação contida nos remédios homeopáticos, que vamos negar a sua eficácia[33]. O conhecido é uma pequena embarcação no oceano do desconhecido e nenhuma mentira, sujeita a constante comprovação, pode sobreviver 200 anos, muito especialmente numa época em que tudo é posto em crise.


DOENÇA

A saúde configura-se como um estado de harmonia entre a mente e o corpo, estado esse que pressupõe o equilíbrio, quer das funções cerebrais, quer dos diversos órgãos.
A doença na concepção de Hahnemann, é algo invisível. É um distúrbio da força vital[34] invisível.
A doença que não tem necessidade de intervenção cirúrgica ou é aguda, crónica, por abuso de medicamentos ou por deficientes condições de vida.

Muito antes da conceptualização da Medicina Psicossomática, aquele afirma que existem doenças psíquicas geradas por doenças físicas[35] e moléstias orgânicas condicionadas pela persistência de ansiedades, aborrecimentos, irritações, injustiças, medos, mágoas e traumas, que em pouco tempo podem destruir a saúde física[36].
As doenças do homem físico, são as do homem psíquico. Quanto mais forem as queixas físicas, mais doente estará o indivíduo. Se predominarem as queixas psíquicas, a terapêutica homeopática será extraordinariamente eficaz impedindo que o paciente seja acometido ulteriormente por padecimentos orgânicos.

Na doença aguda, decorrendo da sua actualidade, os principais sintomas são facilmente individualizáveis, exigindo-se um pequeno esforço do homeopata e do paciente para se delinear o quadro clínico.
Seleccionado e ministrado o correcto medicamento homeopático, a doença declinará imperceptivelmente, levando algumas horas se é de recente instalação ou mais tempo se for de longa duração[37], constatando-se primariamente a melhoria do estado mental[38].

Coabitação de doenças

Não deixa de ser frequente, que duas ou mais doenças coexistam no mesmo organismo simultaneamente. Caso tal facto suceda, a força relativa das enfermidades é que determina qual prevalecerá.
Na presença de duas doenças distintas no mesmo organismo e sendo a mais antiga de força superior à que foi contraída recentemente, observar-se-á que a mais actual será repelida pela original[39]. Caso a doença recentemente instalada tenha uma força superior à doença que já residia no organismo, ocorrerá que a mais antiga permanecerá estacionária até que a neoformada complete o seu curso natural[40].
Resulta deste conceito que a Dinamis[41] não consegue curar uma doença com a instalação de uma outra diferente[42], mesmo de força superior. Somente nas circunstâncias em que ambas as doenças se assemelham na sua sintomatologia é que se experimenta a aniquilação mútua das enfermidades[43].
Dificilmente uma doença aguda constituirá um quadro complexo com uma crónica. Aquela excluirá esta, temporariamente.

Iatrogenia

No seio das doenças crónicas surge um grupo de enfermidades que tem aumentado no decorrer das décadas e que, infelizmente, se assumem como as mais graves e incuráveis das doenças de longa duração. Referimo-nos às doenças iatrogénicas, ou seja, aquelas que são produzidas por acções médico-terapêuticas inadequadas.

Hahneman afirma ser praticamente impossível proceder à cura de tais enfermidades, após estas terem ultrapassado certa fase do seu quadro evolutivo[44].
Mais à frente teremos em conta as denominadas barreiras ou obstáculos produzidos por medicamentos alopáticos ao pleno efeito dos medicamentos homeopáticos.


MIASMA[45] HAHNEMANIANO, DIÁTESE[46] OU DOENÇA HAHNEMANIANA CRÓNICA

Diátese é o conceito actual que além de englobar a doença crónica resultante de acção miasmática a que se refere Hahnemann, enquadra o conceito de modo reaccional patológico. Traduz-se assim, numa modalidade reaccional patológica específica dum indivíduo face a uma agressão patogénica indiferenciada. Crê-se actualmente que o conceito de miasma Hahnemaniano se encontra ultrapassado[47] devido ao facto de este não englobar uma série de factores etiológicos de carácter endógeno, nomeadamente a hereditariedade e a adaptação dos genes humanos. Erradamente, esta perspectiva actual resulta de interpretações restritivas da obra de Hahneman[48].

Deve referir-se, que a remoção da superfície do organismo das manifestações de uma doença miasmática interna, deixando o miasma por curar, é a forma mais usual e prolífica de produzir doenças crónicas[49].
A doença crónica progride do exterior para o interior, do baixo para o alto e os sintomas desaparecem na ordem inversa do seu aparecimento.

Hahnemann, constatou que alguns doentes tratados convenientemente com o remédio simillimum:

- tinham apenas leves melhorias;
- tinham recaídas;
- eram acossados por novas patologias[50].

Daqui deduziu que subjacente à patologia aguda teria que existir uma crónica, que englobou em categorias diatésicas, verdadeiras disposições latentes, de causa hereditária ou adquirida, condicionantes do modo de reagir de um organismo, predispondo-o a contrair um certo número de doenças.
Assim, os doentes cujas patologias não respondessem satisfatoriamente ao simillimum, deveriam ser enquadrados naquelas categorias para efeitos de tratamento[51].
Atente-se que a noção de doença crónica, não foi unanimemente aceite. Homeopatas como Kent e Hering, não lhe atribuíram grande importância, desenvolvendo todos os seus esforços na tentativa de descoberta do simillimum aplicável às situações patológicas imediatas do paciente em observação.

Gibson Miller, aluno de Kent, sustentou a necessidade de serem administrados sucessivamente diversos remédios, com o fim das doenças crónicas atingirem a cura.

Se no decurso de uma doença crónica surgir uma doença aguda banal, deve ser prescrito o remédio mais indicado, mas em baixa dinamização, de forma a não interferir ou interferir o menos possível com a acção prioritária do remédio de fundo.

Hahnemannn individualizou três categorias:

- Psora[52];
- Sicose[53];
- Lues ou Sífilis[54].

Pelos trabalhos de Nebel[55] e Vannier[56], incluem-se outras duas:

- Tuberculinismo[57];
- Cancerinismo[58].

Existindo um número considerável de remédios diatésicos[59], o terapeuta terá de procurar nas suas patogenesias os sintomas do quadro patológico apresentado pelo doente e obtido com recursos que não se limitam aos sinais recentes.
É aqui de vital importância a anamnese e o simillimum terá de estender a sua acção, quer aos sintomas imediatos quer aos mediatos[60]. Numa doença crónica, a totalidade dos sintomas, compreende os existentes desde o nascimento, excluindo os que se apresentem como estruturadores de um quadro agudo.

Em regra, o simillimum terá propriedades de cura quer no agudo, quer no crónico, mas quando tal não aconteça, terão de se receitar sucessivamente vários medicamentos[61], em consonância com a reavaliação constante do paciente e da patologia.

É importante frisar que todos nós somos polidiatésicos[62] e as diáteses devem ser tratadas na ordem cronológica inversa ao seu aparecimento: primeiro a mais recente, depois a(s) mais antiga(s).
Se constatarmos uma determinada diátese actual, a sua cura fará com que surjam os sinais da diátese ou diáteses mais antigas, que serão tratadas em ordem sucessiva com o respectivo simillimum, até ao desaparecimento integral de todos os sintomas.
Cada paciente individualmente considerado, exibe apenas uma parte total dos sintomas que constituem a extensão total da diátese[63], extensão esta que foi obtida pela observação de muitos pacientes acometidos dessa “doença crónica”[64].
No domínio das diáteses, para além dos medicamentos de referência – ver nota nº59 –, crê-se que exerçam um papel fundamental os nosodos[65], policrestos de acção quer geral, quer local – Psorinum, Medorrhinum, Luesinum, Tuberculinum e Carcinosinum –.
No contexto da nota 59, referimos o medicamento constitucional de cada uma das diáteses:

Psora – Calcarea Carbonica;
Sicose – Calcarea Carbonica;
Lues  - Calcarea Fluorica;
Tuberculinismo – Calcarea Phosphorica.

As constituições[66] carbónica, fosfórica e fluórica, que são uma constante dos indivíduos, foram estudadas por Nebel[67] e são determinadas pela observação do esqueleto e da forma do corpo.
O carbónico apresenta formas arredondadas e o antebraço apresenta na posição de repouso, relativamente ao braço, um ângulo inferior a 180º.
O fosfórico é um longílineo, grande e magro. O antebraço está exactamente no prolongamento do braço.
O fluórico é um longílineo ou brevílineo, com o rosto e o corpo dissimétricos, decorrentes de deformações esqueléticas. Os dentes estão mal implantados. O antebraço apresenta relativamente ao braço, um ângulo superior a 180º.

Expomos a seguir, ainda que sumariamente, os principais sinais e sintomas das várias diáteses, de forma a que o homeopata possa expeditamente subsumir-lhes o quadro clínico apresentado pelo doente sujeito a observação[68].

PSORA

A psora resulta na sua base conceptual Hahnemaniana, das sarnas cutâneas. Estas abundavam na época e encontravam-se mal definidas clinicamente. Deste modo, a psora não resulta exclusivamente da sarna mas também de toda uma série de enfermidades dermatológicas – eczemas, dermatoses, dermatites, micoses, etc. –.
Este grande miasma, comporta assim uma componente cutânea, seja ela adquirida ou congénita.

Etiologicamente, a psora pode ser fruto dos seguintes factores:

- Afecções dermatológicas suprimidas – não é infrequente que uma patologia crónica deste foro, seja aparentemente curada por aplicações tópicas ou sistémicas alopáticas e que resulte posteriormente em manifestações psóricas. Qualquer patologia dermatológica de marcada extensão, constituirá potencialmente uma fonte de psora.
- Os neo-alérgenos e a sua proliferação.
- As sobrecargas alimentares – incluindo os consumos exacerbados de açúcares e gorduras animais.
- A hereditariedade.

No que respeita ao quadro sintomático e de sinais clínicos psóricos:

- Dermatologicamente apresentam-se manifestações mais ou menos intensas do miasma psórico. O simples prurido é um sintoma da psora.
- Sintomatologia respiratória, crónica, alternada e com periodicidade.
- Termoregulação alterada.
- A presença de sintomatologia pertencente ao aparelho digestivo. Obstipação, funcionamento intestinal comprometido, desejo de açúcares e alterações do apetite.
- Todas as secrecções e excrecções apresentam um odor forte e desagradável.
- Problemas das faneras, especialmente das unhas.
- Problemas ginecológicos – prurido vulvar, leucorreias nauseabundas e irritantes, SPDM[69].
- Propensão a parasitoses.
- Astenia e tristeza exacerbadas.

Reaccionalmente o psórico caracteriza-se por:

- Inflamações cutâneas.
- Metástases mórbidas.
- Esgotamento reaccional.

Modalidades:

- Agrava pelo frio ou pelo calor.
- Agravamento com o tipo de Lua – cheia, nova, quarto minguante –.


SICOSE
A sicose resulta da evolução crónica de uma gonorreia. O conceito de sicose além de se enquadrar no quadro patológico da blenorragia, ultrapassava os seus limites e englobava qualquer tipo de tumoração benigna. 

No plano etiológico o sicótico sofre por:

- D.S.T (Doenças Sexualmente Transmissíveis).
- Polivacinações.
- Terapêuticas imunossupressoras.
- Hereditariedade.

Os principais sinais e sintomas clínicos são:

- Corrimentos genitais.
- Diarreias de cor esverdeada.
- Sudação exacerbada.
- Exsudação rinofaríngea e do aparelho respiratório.
- Neoformações cutâneas.
- Tumoração volumosa, lenta, regular e benigna.
- Aumento de peso.
- Ruminação de pensamentos, angústia e mau humor.
- Quadros fóbicos, v.g. o receio de neoplasias.
- Ideias fixas e sensações corporais bizarras.
- Agravamento das enfermidades pela humidade, especialmente pelo frio húmido.
- Dores articulares.
- Ingestão exagerada de chás.

Reaccionalmente o miasma sicótico evolui:

- Inflamação.
- Exsudação.
- Neoformação.

Modalidades

- Agrava mediante todas as formas de humidade.
- Má reacção à vacinação.
- Agrava por certos alimentos – chá, café, cebola –.
- Melhora com a secura e o calor.
- Melhora com eliminações líquidas.

LUETISMO OU MIASMA SIFILÍTICO

Hahneman descreveu-a originalmente como sífilis visto resultar etiologicamente de uma infecção pelo Treponema Pallidum. A Lues – como é conhecida actualmente –  reflecte a evolução de uma doença pelo chamado “cancro duro”.

Na etiologia da Lues encontramos:

- A sífilis.
- O alcoolismo.
- Tabagismo intenso.
- Patologias amigdalofaríngeas por estreptococo beta-hemolítico do grupo A.
- Os chamados “Grandes Dramas” – guerra, fome, miséria.

Patologicamente a Lues cobre:

- Os rins.
- A boca e a garganta.
- Ossos e articulações.
- As escleroses neurológicas.
- O aparelho cardiovascular.

Sinais e sintomas da Lues:

- Instabilidade de carácter com distúrbios da actividade e agitação.
- Condutas obsessivas.
- Insónias.
- Exacerbação das secrecções que atinge os diversos aparelhos.
- Algias ósseas insustentáveis.
- Ulcerações associadas aos diferentes aparelhos.
- Progressão regular da hipertensão arterial severa.
- Varizes e úlceras varicosas.
- Amigdalites, anginas recidivantes e repetidas, parodontoses.
- Dissimetrias morfológicas evidentes.

Modo reaccional:

- Inflamação.
- Ulceração.
- Esclerose.

Modalidades:

- Agravamento geral de todas as patologias à noite.
- Melhoria geral na montanha.


TUBERCULINISMO

Esta é uma diátese actual, identificada por Nebel e Léon Vannier. É fruto da tuberculose e os seus órgãos alvos são os respeitantes ao aparelho respiratório.

Etiologia tuberculínica:

- Tuberculose.
- Infecções pulmonares severas.
- Aumento de pneumoalérgenos actuais.
- Colibaciloses urinárias recidivantes.
- Vacinas tuberculinizantes em tipos sensíveis.

Fisiopatologicamente a diátese tuberculínica cobre:

- Os aparelhos cardiovascular, genitourinário, respiratório, gastrointestinal.
- Afecções renais.
- Problemas osteoarticulares.
- Enfermidades dermatológicas.
- Disfunções hepáticas.

Principais sinais e sintomas da diátese tuberculínica:

- Sensibilidade reactiva aumentada a todas as agressões do aparelho respiratório.
- Insuficiência respiratória.
- Desmineralização global – dores dorsais frequentes, magreza apesar do apetite voraz, esgotamento físico e intelectual rápidos, agitação permanente.
- Variação extrema de todos os sintomas, sejam físicos ou mentais.
- Cefaleias frequentes.
- Apetite intenso.
- Disfunções cardíacas – hipotensão, taquicardias, precordialgias –.
- Diarreias fáceis.
- Hipersexualidade.
- Fluxo menstrual abundante.
- Algias articulares.
- Congestão venosa periférica.
- Sudação profusa.
- Cistalgias e cistites frequentes no sexo feminino.
- Tosse fraca e frequente.
- Tendência hemorrágica.
- Ataques febris inesperados.

Evolução reaccional:

- Inflamação pulmonar.
- Esclerose pulmonar.
- Esgotamento rápido.


CANCERINISMO

Esta diátese é fruto de estudos recentes e caracteriza-se como um modo reaccional que pende sobre o risco da oncogénese.

Os factores etiológicos que assistem ao cancerinismo são:

- A hereditariedade.
- A iatrogenia.
- Os vírus.
- A poluição atmosférica.
- O desregramento alimentar e os carcinógenos químicos presentes na alimentação.
- O stress emocional.

Como principais sinais e sintomas clínicos desta diátese temos:

- Propensão à formação de nódulos inflamatórios – próstata, gânglios, útero, cólon, seios.
- Dores que queimam, lancinantes, repetitivas localizadas nos processos inflamatórios.
- Falência da energia vital – fadiga e tristeza profundas, emagrecimento lento, frio excessivo.
- Alterações do aparelho digestivo – ardor e sensação de queimadura na boca, ardor no estômago, dores que queimam e câimbras abdominais, hemorróidas permanentes.
- Afecções pulmonares, renais e geniturinárias.
- Alterações de monta na pele.

Modo reaccional:

- Inflamação.
- Multiplicação.
- Disseminação.

Modalidades:

- Agrava pelo frio, pelas alimentações excessivamente ricas e por um esforço mental excessivo e constante.
- Melhora com um clima ameno e temperado, alimentação desintoxicante e pelo repouso.

Expostas as diáteses homeopáticas, fazemos um reparo a respeito da sua utilização na prática homepática.
Efectivamente, a sua importância clínica não deve ser descurada de modo algum, mas o modo como se efectua a terapêutica nalguns casos conhecidos deixa muito a desejar. A prescrição de nosodos ou de qualquer remédio diatésico deve ser sempre precedida por um estudo profundo, que tome em linha de conta as leis da similitude.


SINTOMAS

Os sintomas expressam as tentativas do organismo em se curar a si próprio.
Em homeopatia há que distinguir os inerentes à própria doença, dos sinais ou condições que pertencem caracteristicamente ao doente enquanto indivíduo.
Pode acontecer, que um determinado medicamento cubra todos os sintomas da doença[70] e não seja o escolhido como simillimum, perante a falta de correspondência com as condições gerais do paciente.[71]
Como já se mencionou, em homeopatia não existem doenças, só doentes. Não é o reumatismo, a depressão, a ansiedade, a artrite ou a enxaqueca que são curados, embora se vise a supressão da sintomatologia associada à patologia de que se padece. Cura-se sim, o paciente que sofre de artrite, reumatismo ou enxaqueca[72]. Nesta perspectiva, os sintomas característicos do paciente[73] são mais importantes que os sintomas e sinais da doença.

O que caracteriza no essencial um indivíduo são as suas características mentais, aversões e desejos,  comportamento e reacção aos elementos naturais.
Hahnemann, percebeu que os sintomas importantes são os característicos, peculiares, raros, raríssimos, repetitivos e inexplicáveis. Incluem-se ainda os sintomas mentais – que também podem ser categorizados mediante as premissas acima referenciadas –, que deverão ser sempre utilizados para a selecção final do medicamento[74].
Os sintomas que nos devem guiar na escolha criteriosa do simillimum, são os individualizantes do doente, que devem ter correspondência na patogenesia do medicamento.

- Os sintomas característicos, individualizam ou caracterizam o paciente no âmbito da totalidade sintomática, estando geralmente associados a modalidades de melhoria ou agravamento.

- Os peculiares são sintomas característicos, específicos de alguns medicamentos – ex.: o medo da morte com agitação entre a uma e as três horas de Arsenicum Album, de apoplexia ao anoitecer de Pulsatilla – ou do próprio doente e do seu caso clínico – ex.: febre alta sem sede, calafrio com sede de água fria.

- Os raros, como o próprio nome indica, só muito raramente se verificam e no repertório são constituídos por rubricas com um número igual ou inferior a três medicamentos – medo de passar por esquinas: Argentum Nitricum e Kali-Bromatum.

- Os raríssimos, também denominados Keynotes, encontram-se em rubricas com apenas um medicamento[75] – a sensação como se o corpo fosse frágil, de vidro, de Thuya.

São estes os sintomas que o homeopata deve investigar escrupulosamente no paciente[76] e que quando presentes, são determinantes para a escolha do medicamento, claro está, com sujeição prévia a uma hierarquização[77].
A prescrição sobre a totalidade dos sintomas, não corresponde à prescrição sobre todos os sintomas. É essencial isolar o maior número possível de individualizantes, que nos conduzam ao simillimum.
Pode dizer-se em síntese, que os sintomas característicos, peculiares, raros e estranhos ou absurdos, são os que definem o paciente e os que em regra mais atraem a nossa atenção, podendo conduzir ao esclarecimento por via diferencial, do resultado obtido por via do estabelecimento da Síndrome Mínima de Valor Máximo[78].
Alguns autores, nomeadamente Séror, consideram um bom sintoma ou sinal o que pode ser encontrado num organismo vivo, mas não num cadáver: uma úlcera ou fractura é visível num ser desprovido de vida, mas o medo da morte ou da multidão, não. Os primeiros são de importância secundária, enquanto que os segundos assinalam a manifestação da vida através da matéria. Por outro lado, um sintoma explicável é um mau sintoma: uma criança que tem aversão a doces porquanto produtores de enormes dores dentárias. Um sintoma inexplicável, como desfazer-se em lágrimas sem saber porquê, é manifestamente um bom sintoma. Na mesma hierarquia devemos colocar os inconscientes, v.g., as múltiplas manifestações do sono.

Os sintomas mais comuns e indefinidos, tais como tristeza, ansiedade, medo, perda de apetite, sono agitado, desconforto, cefaleias, não merecem em especial a nossa atenção, porque são observados em quase todas as doenças e elencam o quadro sintomático de grande número de medicamentos.

Os sintomas gerais, que respeitam ao corpo na sua integralidade, têm um valor superior aos locais. Um só sintoma geral, bem marcante, é mais importante que o conjunto de locais ou particulares.
Quando o doente fala na primeira pessoa do singular, podemos estar quase certos que se refere a um sintoma geral: eu tenho frio; eu tenho sede.

Por outro lado, a importância dos sintomas mentais não pode ser descurada. Os mais importantes são os que manifestam a vontade e a afectividade do paciente. Depois, vêm os relativos à inteligência, seguidos pelos atinentes à memória.

Há sempre que reconhecer quais os sintomas comuns à doença e os que são característicos do doente, estes sim de vital importância.


Interrogatório e Exame
Há que identificar a totalidade dos sintomas do paciente de forma a conseguir a sua remoção, o que equivale à destruição integral da causa da doença[79].
Esta identificação consegue-se por intermédio do seu “exame”.


Segundo Hahnemann:

- O paciente fornece uma história detalhada dos seus padecimentos[80]. O homeopata anota tudo, iniciando um novo parágrafo a cada sintoma relatado[81], evitando interrompê-lo (§ 84 e § 85 do Organon).

- Atende então a cada sintoma em particular obtendo informações mais precisas[82], sem que formule questões de forma sugestiva ou que possam ser respondidas com um simples sim ou não (§ 86 e § 87 do Organon).

- Se nos padecimentos voluntariamente mencionados, houver lacunas sobre várias partes, funções do organismo e estado mental[83], o homeopata deve questionar o paciente no que a tal respeitar (§ 88 do Organon).

- Deverá também anotar tudo o que observar no doente (§ 90 do Organon).

- No caso de doença crónica[84], há que reconhecê-la na sua forma original, devendo para tanto o doente ser privado por alguns dias dos medicamentos que toma, procedendo-se à anotação cuidada das mais pequenas peculiaridades ou sintomas mínimos (§ 91 e § 95 do Organon).

- Nas doenças agudas, não obstante o homeopata tenha de inquirir menos, porquanto os sintomas estão bem presentes na memória do enfermo, deverá ser feito um quadro completo da doença (§ 99 do Organon).


O nosso modelo de interrogatório foi idealizado visando uma repertorização breve e o mais exacta possível.
Durante o interrogatório devem ser sempre tomadas em consideração:
As modalidades que provocam, agravam ou melhoram os sintomas, alternâncias ou concomitâncias sintomáticas, todos os factores subjectivos e sensações associadas à doença ou ao próprio paciente como entidade global, a lateralidade, horários de agravamento e melhora e os factores etiológicos que geraram a morbicidade do quadro[85].

A anamnese compreende um período prévio em que o paciente mencionará a sua queixa principal e relatará mesmo que parcialmente, a história pregressa da doença.

A todo o momento, o homeopata deve atentar nas características peculiares e únicas do seu paciente. Desde o momento em que entra no consultório até à sua partida, o homeopata tem obrigação de constatar todo e qualquer sinal pertinente para a procura do medicamento correcto[86].

No que respeita às fases da anamnese[87] numa consulta de homeopatia:

Queixa principal ou relato da história individual[88].

O paciente deve apresentar uma história o mais detalhada possível da doença.
Se possível, deverá referir os factores etiológicos ou biopatográficos[89].
Procederá à descrição do quadro sintomático.

Interrogatório[90].

Compreende uma série de passos que o homeopata poderá seguir ou não, dependendo da sua experiência clínica ou até mesmo da sua predilecção por um outro modelo de questionário. Não é forçoso que o bom interrogatório seja tal qual aquele que demonstramos. Pelo contrário, este modelo de interrogatório é meramente indicativo de como se poderá processar o questionário aplicado à clínica homeopática.
O questionário que apresentamos depende directamente da estrutura do Repertório Homeopático de Ariovaldo Ribeiro  Filho, que tem por base o de Kent.

Dados pessoais

Aqui, incluem-se todos os dados pessoais do paciente tais como: nome, idade, profissão, agregado familiar, etc[91].

Fase interrogatória.

Sobre a mente e as ilusões.
Sobre o sono e os sonhos.
Cabeça e pescoço.
Olhos e visão.
Ouvidos e audição.
Nariz.
Face.
Boca, paladar e dentes.
Apetite, bebidas e alimentícios.
Garganta, garganta externa.
Laringe e traqueia.
Tórax, peito.
Aparelho respiratório, respiração.
Tosse.
Expectoração.
Costas.
Aparelho cardiovascular.
Abdómen e estômago[92].
Reto.
Rins e bexiga.
Excreções (urina e fezes).
Genitais.
Pele.
Aparelho locomotor.
Sistema nervoso.
Transpiração.
Dor.
Generalidades[93]

Interrogatório sobre os antecedentes do paciente.

Antecedentes familiares[94].
Antecedentes pessoais[95].
Antecedentes ginecológicos[96].

Inspecção ou exame.

Sinais vitais[97].
Aspecto geral[98].
Reavaliação e consolidação, a posteriori, por intermédio do exame, dos dados obtidos na fase de interrogatório[99].


O REPERTÓRIO HOMEOPÁTICO

Hahnemann entendeu desde os primórdios da sua prática clínica e científica, face ao desenvolvimento e alargamento da matéria médica homeopática, consubstanciada no aumento das substâncias experimentadas, a necessidade de criação de repertórios que se constituíram como índices de sintomas coligidos a partir de registos toxicológicos – v.g. a intoxicação voluntária ou involuntária pelo arsénico –, experimentações em voluntários aparentemente saudáveis – que começaram por ser os próprios homeopatas[100] - e curas comprovadas pela prática clínica.
Estes repertórios, prosseguem a descoberta do simillimum  e espelham a impossibilidade do ser humano, atentas as suas limitações, de memorizar todos ou a maior parte dos sintomas das ditas Matérias Médicas.

De Hahnemann[101] a Kent[102], foram publicados inúmeros repertórios destacando-se os de Boenninghausen[103] - “The Repertory of Antipsorics” (1832); “Repertory of the Medicines wich are not Antipsorics” (1835); “Therapeutic Pocket Book” (1845) –, de Jahr – “New Manual of Homeopathic Practice” (1841) –, de Lippe – “Repertory of the more characteristics Symptoms of the Materia Medica” (1880) –, de Hering – “Analitical Repertory” (1881) – e Gentry – “The Concordance Repertory of the Materia Medica” (1890).

Em 1887, Kent fazia publicar o “Repertory of the Materia Medica” com 540 medicamentos citados, podendo dizer-se, sem exagero, que está na origem de todos os repertórios actualmente utilizados.
Os capítulos desta obra, formam 37 secções – v.g. 1 - Mente; 2 - Vertigem; 3 - Cabeça; (...); 32 - Sono; (...); 37 - Generalidades – e alguns são subdivididos anatomicamente - v.g. Cabeça: Fronte; Lados; Occipital; Têmporas e Vértice.
Os medicamentos surgem pontuados de 1 a 3, isto de acordo com a sua eficácia e confirmação na génese patogénica.
As referências cruzadas presentes na obra, destinam-se a prevenir interpretações erróneas dos sinais patológicos expressos pelo paciente, isto, ao remeterem para rubricas sinónimas as expressões ou palavras que este emprega.

Além destes, não podemos deixar de nos referir ao “Clinical Repertory” de John H. Clarke (1853-1931), autor de uma Matéria Médica que demorou dezasseis anos a concluir e que se apresenta como uma das mais importantes para o estudo e prática da Homeopatia[104].

Após longos anos de intenso trabalho, Ariovaldo Ribeiro  Filho, publicou em 1996 o “Novo Repertório de Sintomas Homeopáticos”, estruturado nos princípios do de Kent.
Esta obra, com 1201 páginas e 1611 medicamentos citados, é composta por 42 capítulos:

Mental.
Ilusões.
Vertigem.
Cabeça.
Olhos.
Visão.
Ouvido.
Audição.
Nariz e Olfacto.
Face.
Boca.
Paladar.
Dentes.
Garganta.
Garganta externa.
Estômago.
Bebidas e Alimentícios.
Abdómen.
Recto.
Fezes.
Bexiga.
Rins.
Próstata.
Uretra.
Urina.
Genitais Masculinos.
Genitais Femininos.
Laringe e Traqueia.
Respiração.
Tosse.
Expectoração.
Peito.
Costas.
Extremidades.
Unhas.
Sono.
Sonhos.
Calafrio.
Febre.
Transpiração.
Pele.
Generalidades.

Aos 37 capítulos do Repertório de Kent, Ariovaldo fez acrescer cinco – Ilusões; Paladar; Bebidas e Alimentícios; Sonhos e Unhas –, originários, respectivamente, dos capítulos: Mental, Boca, Estômago e Generalidades, Sono e Extremidades[105].
Os capítulos estão divididos em rubricas – letra maiúscula em negrito – e estas: na primeira sub-rubrica, segunda sub-rubrica, terceira sub-rubrica, quarta sub-rubrica, quinta sub-rubrica, sexta sub-rubrica (sem sinal).

Os períodos do dia têm a seguinte significação horária:

Manhã – 5 às 9h.
Antes do Meio-Dia – 9 às 12h.
Tarde – 13 às 18h.
Anoitecer – 18 às 21h.
Noite - 21 às 5h.

Estão descritas inúmeras referências cruzadas (Ver... ou ÄVer...), cuja função é a de auxiliar o homeopata na escolha do sintoma e do medicamento correcto, face à afinidade, sinonímia ou analogia de algumas expressões comumente utilizadas.

As abreviaturas mais usadas são:

agr. – agravação.
melh. – melhora.
av. – aversão.
des. – desejo.

Os medicamentos citados foram divididos em três graus diferentes:

- Grau I – em negrito com valor de três pontos. Sintoma registado pela maioria ou por todos os experimentadores, confirmado em diferentes grupos de experimentação e cuja eficácia foi comprovada na cura de casos clínicos.
- Grau II – em itálico com valor de dois pontos. Sintoma registado por uma parte dos experimentadores e comprovado na clínica.
- Grau III – em estilo romano com valor de um ponto. Sintoma apresentado por um ou muito poucos experimentadores.


REPERTORIZAÇÃO

A repertorização é o modo pelo qual o homeopata, transformando a linguagem do paciente no que aos sintomas do caso respeita, em linguagem repertorial, obtém um maior ou menor número de medicamentos ordenados por cobertura ou pontuação.
A repertorização é meramente sugestiva. Ela indica-nos um conjunto de substâncias que se podem assumir potencialmente como semelhantes do caso. Mas a decisão caberá sempre em última instância, à comparação por diferencial, da totalidade sintomática com as patogenesias descritas nas Matérias Médicas.

É fundamental entender-se que a prescrição só será correcta e coroada de sucesso se o homeopata estiver habilitado a destrinçar os sentidos de rubricas similares ou quase similares. Para tal, deve ler amiúde as rubricas do Repertório, percorrendo-o sem qualquer outra intenção que não seja conhecê-lo. Este manuseio atento, permitir-lhe-á em inúmeras situações, realizar uma cuidada repertorização, com sintomas bem definidos e modalizados, preservando a linguagem empregue pelo paciente, limitando a utilização de sinónimos repertoriais que se susceptibilizem de alterar o sentido ao relato que o paciente fez durante a anamnese.
Devemos sempre procurar certificar-nos que a expressão utilizada pelo doente, tem integral correspondência com os termos repertoriais. As rubricas demasiadamente genéricas, com um número muito elevado de medicamentos[106] ou aquelas que apresentam muito poucos[107], devem ser evitadas dado poderem, respectivamente, exacerbar ou restringir a amplitude da pesquisa[108].
Atente-se que nas doenças agudas, havemos de valorizar primordialmente os sintomas mais recentes[109], enquanto que nas crónicas são valorizados os mais antigos e repetitivos, sem olvidar, obviamente, o critério da peculiaridade dos sintomas.

Apontamos de seguida, sumariamente, os métodos de repertorização mais utilizados:

- Repertorização Mecânica ou por Extenso;
- Repertorização com Sintoma Director;
- Repertorização fundamentada na Síndrome Mínima de Valor Máximo.


Repertorização Mecânica ou por Extenso

Neste método, identificam-se todos os sintomas do paciente – tabulação completa da totalidade sintomática como preconizava Boeninghausen –, sem que se recorra a qualquer valoração ou hierarquização.
Repertorizam-se os sintomas e no final procedem para o diferencial na Matéria Médica os dez ou doze primeiros medicamentos que resultaram da actividade repertorial – estes podem ter sido obtidos por cobertura e/ou pontuação[110].
De qualquer modo, para efeitos de diagnóstico diferencial, não devem ser descurados os sintomas característicos, peculiares, raros e raríssimos.
Este, é considerado por muitos o método de repertorização mais falível, por beneficiar os medicamentos policrestos.

Repertorização com “Sintoma Director”[111]

Este método compreende duas fases:
A primeira, implica que se escolha um sintoma bastante característico e marcante ou chamativo do caso clínico. Como já foi mencionado, a rubrica referente ao sintoma não deve ultrapassar os oitenta nem possuir poucos medicamentos.[112]
A repertorização cingir-se-á aos medicamentos apresentados pelo Sintoma Director. Destes medicamentos escolhem-se os de maior pontuação.
Numa segunda fase, procede-se à repertorização de outros sintomas marcantes que dependerão directamente dos resultados obtidos da análise do S.D. A escolha destes sintomas não depende de qualquer pressuposto hierárquico. Neste momento da actividade repertorial, o critério de selecção do medicamento deixará de ser exclusivamente a pontuação passando a ser também a cobertura, já que se incluíram vários novos sintomas.
Na fase final da repertorização, serão levados ao diferencial da Matéria Médica os dez ou doze medicamentos que tenham tido maior pontuação.      
      
Repertorização Fundamentada na Síndrome Mínima de Valor Máximo

É denominado como método artístico.
Escolhem-se de 3 a 5 sintomas, devidamente hierarquizados, caracterizadores da individualidade do paciente, em rubricas com um número médio de medicamentos – 50 a 80.
Neste tipo de repertorização não se atende à pontuação mas sim à cobertura efectuada pelos medicamentos. O medicamento seleccionado, é aquele que por cobertura, engloba a totalidade ou a maior quantidade dos sintomas seleccionados.
A parte consideravelmente mais difícil deste método, é a fixação da S.M.V.M. – selecção dos sintomas mais individualizantes e representativos do caso.

Pode-se efectuar uma variação sobre este método, que compreende a utilização dos medicamentos resultantes da repertorização como sintomas directores aos quais vão ser aditados outros sintomas apresentados pelo paciente para ulterior análise repertorial. Trata-se nada mais do que a combinação do método de Repertorização pela S.M.V.M com o método de Repertorização com “Sintoma Director”[113].

EXPERIMENTAÇÃO


As Matérias Médicas têm por principal fonte a experimentação[114].
      
Os efeitos mais característicos dos medicamentos, para serem correctamente obtidos, foram desde Hahnemann administrados experimentalmente em indivíduos sãos e em doses moderadas[115], para além das experimentações próprias dos homeopatas que com liberdade de espírito e apurada sensibilidade as efectuaram no seu corpo[116].
Pode assim dizer-se que as Matérias Médicas nascem dos testes de medicamentos realizados em organismos sadios. Em pessoas doentes ou fragilizadas, as alterações de saúde inerentes a cada medicamento, misturar-se-iam com os sintomas da doença, originando confusão, falseando os resultados e os verdadeiros efeitos patogénicos[117].

Hahnemann ressaltava que a investigação da totalidade – ou quase – dos poderes medicinais das substâncias, passava pela ingestão em jejum de 4 a 6 glóbulos da trigésima potência pelo experimentador, humedecidos com um pouco de água, mantendo-se este regime durante vários dias[118].
A utlilização da 30ª CH na experimentação, é uma escolha criteriosa, já que os sintomas se estruturam numa realidade energética, não molecular.
Para obter a patogenesia do medicamento pode utilizar-se a dose glóbulos – 1 gr. de glóbulos constituídos por uma parte de lactose e duas de sacarose, impregnados pela substância a experimentar – ou partir de 2 a 5 grânulos – ou gotas –, aumentando um grânulo – ou gota – por dia até ao aparecimento dos sintomas, mantendo o experimentador em observação por um ou dois meses.
Este, submetido a uma rigorosa dieta[119] e a uma inactividade psíquica propícia à auto-observação[120], deve anotar todos os sintomas na ordem do seu aparecimento [121], descrevendo-os na sua linguagem e sem recorrer a justificações, comparações ou interpretações.
Preferencialmente e quando possível, deve modalizar os sintomas, sendo advertido que a dose subsequente pode curar sintomas causados pela dose anterior ou desenvolver um efeito oposto ao desta – daí a importância da anotação sequencial.
Na experimentação, verificamos que alguns sintomas são obtidos na totalidade ou em quase todos os indivíduos, outros apenas numa parte e por fim, aqueles que surgem num ou em raros experimentadores[122]. Estes últimos experimentadores são os idiossincrásicos ou aqueles que apresentam sintomas obtidos em raros organismos sadios[123].

MATÉRIA MÉDICA


A Matéria Médica é um registo de sintomas, contendo o resultado das experimentações em organismos sãos, dos envenenamentos voluntários ou involuntários e da prática clínica, sendo complementar do Repertório na medida em que é auxiliada por este na escolha final do medicamento.
Nela vamos encontrar as alterações de saúde e os sintomas produzidos por uma dada substância, sendo essencial o seu conhecimento para a prática da homeopatia[124].
A repertorização sugere-nos alguns medicamentos que vão ser sujeitos a uma análise diferencial – nas Matérias Médicas –, com o intuito da descoberta do simillimum.
As Matérias Médicas a consultar nesta sede, não devem ser inferiores a três de modo a que o conteúdo de uma complemente as lacunas de outra.
Grosso modo, as Matérias Médicas dividem-se em três tipos:

- Puras.
- Semi-Puras.
- Clínicas.

Nas primeiras, os sintomas de cada medicamento são relatados na linguagem própria do experimentador[125].
Nas Semi-Puras, para além destes, estão descritos elementos relativos à observação clínica do autor[126].
Por último, nas Clínicas, domina a observação clínica do autor, sendo utilizadas expressões próprias deste e não do experimentador[127].
Clarke, um dos maiores homeopatas anglófonos, cuja matéria médica se consubstancia como uma autoridade inequívoca e essencial, referia que o conhecimento preciso da sintomatologia de Sulphur, Lycopodium, Calcarea, Arsenicum, Thuya, Aconitum, Nux Vomica, Pulsatilla, Silicea, Hepar, China, Belladona e Bryonia, habilitava o prático a tratar com sucesso a maioria dos casos que encontrasse[128].


TRATAMENTO


Hahnemann escreveu que para um tratamento conveniente, após anotação dos medicamentos por cada sintoma apresentado pelo paciente, devemos ser capazes de distinguir aquele que cobre a maioria dos sintomas, especialmente os mais peculiares e característicos[129].
Seleccionada após comparação na Matéria Médica, deve ser a substância que mais semelhanças apresenta com a totalidade do quadro clínico que se nos depara.
Na falta do medicamento perfeito, deve ser ministrado o imperfeito[130].
Sendo frequente, que a similitude não seja total, não se pode esperar que a cura seja total e isenta de perturbações. No decorrer do uso do simillimum imperfeito, poderão surgir sintomas acessórios não observados previamente na doença[131]. De qualquer modo, isto não impede que parte da enfermidade não seja debelada pelo medicamento. Persistirão somente os sintomas não cobertos pelo medicamento e aqueles que surgiram acessoriamente assumirão um carácter moderado, sempre que a dose do medicamento não seja exagerada.

Caso surjam efeitos acessórios importantes durante a acção de um medicamento imperfeito, não se permitirá que a acção deste se extinga. Pelo contrário, proceder-se-á a nova repertorização, desta vez englobando o novo universo sintomático. Este processo é “vicioso” até que se complete a cura integral do enfermo.
Contrariamente à situação anterior, o simillimum perfeito, imitando a doença na íntegra, ministrado em dose adequada, removerá de forma radical a totalidade sintomática[132].

Se o simillimum for encontrado, qualquer dose será suficiente para a cura, desde que inexistam barreiras diatésicas. Se estas existirem terão de ser cuidadosamente investigadas a fim de serem debeladas, nomeadamente por intermédio de antídotos e nosodos, sem que se olvide, como exaustivamente temos vindo a referir, as leis da similitude.

Hahnemann preconizava que em determinadas circunstâncias a utilização de medicamentos complementares é não só benéfica, como necessária para a obtenção de cura[133].

Na dificuldade do simillimum perfeito ser encontrado, Hering enunciou uma regra segundo a qual são suficientes três sintomas bem indicativos, para que se estabeleça a escolha de um bom medicamento, como são suficientes três pés para que um banco esteja equilibrado[134].
Dito por outras palavras, se três características principais de um caso são identificadas num dado remédio, há um tripé sobre o qual a prescrição se pode apoiar com grandes possibilidades de sucesso.
A teoria de Hering tem um vasto campo de aplicação nos casos agudos e pressupõe que o homeopata isole os sintomas característicos em número de três, levando-os ao repertório, que confirmará o seu valor (grau 1).

Não podemos, na maior parte dos casos, esperar do medicamente homeopaticamente imperfeito uma cura integral, já que no decorrer do tratamento podem surgir sintomas acessórios[135] de alguma monta, que implicam o traçado de um novo quadro da doença[136] e a prescrição de um novo medicamento.
Aliás, sempre que ocorra mudança na doença, deve seleccionar-se um outro medicamento para combater os sintomas que restam ou que surgem após a acção do primeiro[137].

Como já foi referido, por vezes, a prescrição do medicamento imperfeito despoleta o surgimento de novos sintomas ou revela sintomas antigos, levando o homeopata a uma reavaliação do caso e à prescrição do simillimum perfeito ou do medicamento mais adequado à situação do enfermo.
Não olvidemos que o estado mental deverá ser sempre utilizado para a selecção final do medicamento.
Note-se ainda, que os sintomas desaparecem pela ordem inversa da sua manifestação[138] e a aplicação do medicamento homeopaticamente correcto produz inevitavelmente uma imediata melhoria do estado psíquico[139].
      
Por último, uma pequena nota relativa ao Genius epidemicus, que é um recurso prático de prescrição. Efectivamente, numa epidemia, pode verificar-se que a totalidade ou quase totalidade dos sintomas são comuns a todos os doentes, o que pode legitimar o uso generalizado de um só medicamento.


MEDICAMENTOS

Fundamentalmente, as substâncias medicamentosas utilizadas pela farmácia homeopática, são de origem animal, vegetal ou mineral[140].
Hoje são cerca de 2.000[141].

As tinturas mãe, são preparações líquidas resultantes da acção dissolvente dum veículo alcoólico nas substâncias de origem vegetal ou animal.
À parte destas, surgem-nos as diluições decimais e centesimais[142].

O remédio mais usual é constituído por grânulos de lactose que são impregnados com a diluição que lhes dá a denominação – verbi gratia, 5ª CH (centesimal); 9ª CH; 15ª CH; 30ª CH.
As doses de glóbulos –  também lactose impregnada com a diluição hahnemaniana – têm a particularidade de serem tomadas de uma só vez pelo doente[143].
Por razões que entenderemos adiante, preferimos ministrar o medicamento em gotas[144]. O mesmo número de gotas que o indicado de grânulos.

Os medicamentos homeopáticos possuem um padrão energético ou vibratório, cuja influência se repercute na força vital do organismo promovendo a sua cura.
No estado actual do conhecimento científico é quase impossível demonstrar de que modo agem as substâncias homeopáticas, muito em especial as altamente diluídas. A prática demonstra que promovem a saúde e a cura, mais nada para além disso[145].
Na perspectiva de Hahnemann, o medicamento homeopático reproduz os sintomas da doença. Deste modo, gera-se uma doença artificial semelhante e mais poderosa do que a que reside no organismo. A força vital vê-se compelida a agir contra uma nova doença despendendo mais energia para a eliminar. A doença criada artificialmente, embora mais poderosa, possui um curto prazo de acção, o que permite à força vital sobrepujá-la facilmente após se ter obtido a cura eficaz da doença original. O organismo permanecerá sadio já que ambas as doenças foram eliminadas com sucesso.
       Verifica-se assim que o medicamento homeopático produz uma doença de força superior, paralela à original que pela sua escassa duração no tempo será facilmente contrariada pela força vital após se ter conseguido a cura da enfermidade fecunda[146].
       Podemos reter que os medicamentos homeopáticos apoiam e estimulam os mecanismos de auto-cura existentes em todo o organismo vivo[147].


PRESCRIÇÃO E POSOLOGIA

Encontrado o Simillimum, há que determinar a:

- Diluição;
- Dose;
- Frequência com que o remédio é administrado.

Nesta matéria, a prática do homeopata é a norma que o deve conduzir[148] e as considerações que se seguem devem tomar-se como meramente indicativas.
Certos homeopatas usam quase que exclusivamente as baixas diluições, outros as altas[149]. Neste campo, a experiência individual é que deve ditar as regras, embora existam certas regras básicas que não se podem esquecer:

Quanto mais alta a diluição e maior a similitude do medicamento seleccionado, mais prolongada no tempo será a acção medicamentosa[150].

Os pacientes idiossincrásicos são particularmente sensíveis a qualquer tipo de diluição homeopática, logo, as reacções adversas ou a acção medicamentosa susceptibilizam-se de perdurarem no tempo, inclusive nas baixas diluições e em circunstâncias de similitude imperfeita.

O medicamento não deve ser repetido enquanto o paciente ainda estiver a beneficiar dos efeitos da dose anterior[151]. Só quando a acção do remédio estiver esgotada, deve o mesmo ser repetido.
As tomas sucessivas do medicamento só se devem processar mediante uma alteração – mesmo que moderada – da potência ou da dose[152].

A utilização simultânea de medicamentos não se traduz numa cura mais célere e pode atrapalhar a escolha da diluição, dose ou a frequência de administração[153].

A frequência com que o medicamento é administrado, em regra é directamente proporcional ao número da diluição[154].

Na presença do simillimum, parece que todas as diluições são curativas, no entanto, quanto mais alta a diluição maior a probabilidade de uma cura permanente.

Atente-se que as altas diluições não devem ser ministradas a doentes incuráveis ou hipersensíveis. Os primeiros acabam por depauperar, enquanto os segundos adquirem os sinais patogenésicos do medicamento.
As mulheres e as crianças reagem geralmente bem aos medicamentos, pelo que se deve começar com baixas diluições. O mesmo se diga no que toca aos indivíduos hipersensíveis, propensos a fazer a patogenesia do medicamento ministrado.

Quando a similitude é grande, podem subir-se as diluições, mesmo nos quadros agudos, o que obriga ao espaçamento das doses – ex: 15 ou 30 CH[155]. Tratando-se de uma doença aguda ou crónica com similitude muito imperfeita devem utilizar-se baixas diluições – ex.: 5 CH. De qualquer modo, o conceito de alta e baixa diluição depende, como já foi referido, da experiência clínica do homeopata.
Nas doenças agudas as diluições baixas são tomadas várias vezes por dia.

Nos casos crónicos, podem ministrar-se altas diluições – ex.: 30CH; 200 CH –, aguardando-se que o efeito do remédio termine[156] para eventual repetição[157] ou então, uma diluição média de modo contínuo, aumentando-se progressivamente a potência ou a dose.

Na perspectiva da Escola Pluralista, em casos agudos – domínio orgânico ou lesional –, recorre-se a baixas diluições (5 CH); nos quadros subagudos – domínio funcional – a diluições médias (5 a 9 CH); e nos casos crónicos – muito especialmente na esfera mental – empregam-se as altas diluições (superiores a 9 CH).
O iniciado na arte de curar homeopática, deve começar por ministrar doses baixas, ou médias, aumentando-as gradualmente em função do acumular da experiência clínica[158].
Aconselhamos o iniciado na prática homeopática, a começar com baixas diluições, aumentando-as progressivamente.
Assim, encontrado o simillimum ou o medicamento mais apropriado, o tratamento pode iniciar-se com uma dose de 6 CH – a menos propensa a agravamentos, segundo certos autores –, aumentada progressivamente logo que o seu efeito termine, para 12 CH, 15 CH e 30 CH.

Como já foi discutido no capítulo referente aos medicamentos, estes podem apresentar-se sob a forma de gotas, grânulos ou glóbulos[159].
Os grânulos são ministrados sublingualmente, em regra, três, longe das refeições.
Segundo o grau de dinamização-diluição, o pluralismo preconiza em regra:

- Se em 5 CH, duas, três ou mais vezes por dia;
- Se em 7 CH, três grânulos uma vez por dia;
- Se em 30 CH, três grânulos em dois ou três dias alternados[160].

A dose de glóbulos – existente no mercado com tal denominação – pode ser substituída por 18 grânulos tomados de uma só vez:

- Se em 15 CH, uma vez por semana.
- Se em 30 CH, uma vez por mês.

As gotas são vertidas sublingualmente, ou dissolvidas em água pura – 1 gota por colher de água.[161]
                                                


EFEITOS DOS MEDICAMENTOS


O fenómeno do agravamento é facilmente compreensível se recorrermos aos princípios que enformam a prática homeopática[162].
É praticamente impossível que medicamento e doença se sobreponham, como sucede com dois triângulos com lados e ângulos iguais[163] e mesmo numa escolha criteriosa, podem surgir em certos indivíduos novos sintomas[164].

Na doença aguda, um suave agravamento homeopático, observado na primeira ou primeiras horas é sinal que a doença cederá[165]. Mas, a agravação homeopática não se constitui como fenómeno obrigatório, a menos que a doença seja grave.
No entanto, se o medicamento for mal seleccionado o doente poderá ter um alívio transitório dos sintomas, seguindo-se um intenso agravamento[166].
Logicamente, quanto menor a dose mais moderado o agravamento[167].

Numa enfermidade de carácter lesional leve, o agravamento homeopático é de curta duração e bastante forte, limitando-se no caso de doenças agudas de instalação recente, à primeira ou primeiras horas[168].
Na lesional de certa gravidade, o agravamento aumenta na sua duração.
Nas doenças funcionais e de carácter incurável, Hahnemann considera que não se deverá verificar qualquer tipo de agravamento.[169]
As doenças crónicas não são afectadas em geral por agravações drásticas, mas podem ocorrer abundantes eliminações.

Léon Vannier e Jean Poirier, consideram que o agravamento medicamentoso não se pode produzir, se não utilizarmos tinturas mãe, tivermos o cuidado de intercalar um dia de repouso de vez em quando – pode ser um dia por semana – no decorrer da administração de diluições médias, não repetir uma alta diluição antes que a sua acção esteja esgotada e por último, se garantirmos a drenagem perfeita do organismo.


Neste particular, damos agora em síntese, o procedimento homeopático tendo em vista as situações que ocorrem ou podem ocorrer na prática clínica, fundamentadas nas leis e teorias expendidas por Hahnemann, Boenninghausen, Hering, Kent e Miller.
Aproveitamos para relembrar o método que conduzirá fatalmente à análise do caso concreto – as anotações que se seguem, não substituem o que se escreveu em sede de Interrogatório e Exame, mas completam-no.

PRIMEIRO CONTACTO COM O DOENTE

Nome, endereço, telefone.
Idade.
Trabalho.
Casado, viúvo, solteiro ou divorciado.

Cor dos cabelos e dos olhos.
Cor do rosto, tez.
Mencionar todos os traços particulares do paciente quanto à sua aparência, forma, aspecto, tamanho, etc.
Altura e peso.

Causa da morte dos familiares mais próximos ou afastados, tanto do lado paterno quanto materno, ou ainda as doenças crónicas que apresentaram durante as suas vidas: tuberculose, asma, cancro, tumores, erupções, doenças de pele, venéreas, ou quaisquer outras crónicas.
Questionar igualmente toda tara particular de um lado ou de outro.

Pedir ao doente que conte a história da doença que o atormenta.
Este deve fornecer uma narração detalhada dos seus padecimentos. O homeopata anota tudo, iniciando um novo parágrafo a cada sintoma relatado, evitando interrompê-lo.
O paciente começa em regra por narrar os sintomas de que está mais ansioso por se libertar.
Quando termina, o médico passa então para cada sintoma em particular obtendo informações mais precisas, sem que formule questões de forma sugestiva.
Caso hajam lacunas sobre várias partes e funções do organismo, bem como das respeitantes ao estado mental, o homeopata questiona o doente no que a tal respeita.
Se a doença crónica obriga a uma investigação profunda da sintomatologia na sua forma originária e correlativa evolução, já a aguda, cujos sintomas estão bem presentes na mente do enfermo, implica menor esforço do prático, o que não quer dizer, que não seja elaborado um quadro completo da doença e dos sinais característicos do paciente.
Entre outros, deve especificar:
Quando começou;
Há quanto tempo dura;
Quais as modificações e evolução por que passou;
Que remédios tomou e em que quantidade;
Qual a causa da doença (na perspectiva do paciente);
Se engordou ou emagreceu nos últimos meses;
Quantas vezes foi vacinado, contra quê e quais foram os efeitos dessas vacinas;
Quais os sintomas  que mais o mortificam e de que se quer livrar, bem como os mais marcantes, característicos e estranhos.

A PRIMEIRA PRESCRIÇÃO

Na primeira prescrição, o homeopata deve tomar em conta a totalidade dos sintomas, afastando deliberadamente a prática de receitar tendo por base um único sintoma ou sinal, mesmo tratando-se de um “Key Note”.
Ocorre, que numa primeira abordagem do paciente, a sua estrutura psico-física não é ainda perfeitamente perceptível, pelo que a regra do tripé de Hering, poderá ter aqui um dos seus campos preferenciais de eleição: são necessários como já se disse, três sintomas bem característicos, individualizantes daquele, para que a prescrição possa produzir algum efeito útil.
Em bom rigor, prescrever sobre a totalidade dos sintomas, não quer dizer que todos sejam tomados em consideração, havendo que proceder à sua valorização e hierarquização. A escolha de quatro ou cinco característicos, constituindo o Síndrome Mínimo de Valor Máximo, conduzirá à escolha do simillimum perfeito ou possível.
Não devemos nunca olvidar, que o que caracteriza um indivíduo, são as suas características mentais, seus desejos e aversões e o comportamento que apresenta face aos elementos naturais, com toda a gama disponível de agravações e melhorias.

Face a um caso crónico, que se arrasta há longos anos, o simillimum só deve ser receitado quando o homeopata disponha de elementos suficientes para erradicar a doença. Isto poderá acontecer na segunda consulta, talvez na terceira. Até lá, se o paciente estiver intoxicado por medicamentos alopáticos, receitar-se-lhe-á Nux Vomica, ou se tiver sido alvo de inúmeras vacinações, Thuya. Poderá considerar-se na ausência destas duas situações a possibilidade de ser ministrado Saccharum Lactis, sem qualquer dinamização.

Entendendo-se conveniente, no fim da primeira consulta, entregar-se-á ao paciente um questionário – Kent elaborou um questionário exaustivo, que entregava aos seus pacientes.

DEPOIS DA PRIMEIRA PRESCRIÇÃO

Poderá ser este o momento em que o simillimum vai ser receitado, caso não o tenha sido na primeira consulta.

Deve assinalar-se a data da toma do primeiro remédio.
- O paciente deve anotar todas as alterações do seu estado e dos sintomas, logo depois de ter tomado o remédio.
Sempre que os sintomas se modifiquem, deve ser tal facto rigorosamente anotado.
Anotam-se os sintomas que desapareceram completamente ou de que se sentem melhoras depois de tomado o primeiro remédio.
Assinalam-se os novos sintomas que podem eventualmente aparecer.
Especificar com precisão os novos sintomas e assinalar os antigos que reaparecem durante o tratamento.
Depois de ministrado o simillimum o paciente deve ser consultado nos 10 a 12 dias seguintes, para avaliação do seu estado.

A partir daqui são múltiplas as situações que podem ocorrer. Analisemos sinteticamente cada uma delas.

APÓS O SIMILLIMUM

- O paciente AGRAVA:
Precisamos de distinguir o que na realidade agrava: agravação do seu estado geral; agravação dos sintomas da doença; agravação dos sintomas da doença e do seu estado geral.
No entanto, não devemos nunca confundir o fenómeno de agravação homeopática com reacções normais de eliminação, nomeadamente como diarreia, vómitos e expectorações.

AGRAVAÇÃO DO ESTADO GERAL DO PACIENTE – Esta agravação corresponde a uma diminuição evidente da alegria, boa disposição, actividade, em suma, um declínio evidente do estado de saúde.
É necessário nunca olvidar que o homeopata busca acima de tudo uma sensação de bem-estar do doente.
Provavelmente o simillimum foi prescrito em baixas dinamizações com tomas muito repetidas.

AGRAVAÇÃO DOS SINTOMAS DA DOENÇA – Agravação dos sintomas causa directa da consulta.

Agravação aguda e curta, seguida de uma melhoria rápida – Estamos perante um bom prognóstico. O doente pode curar-se ou ter uma recaída ao fim de algumas semanas. Neste último caso, repetir o remédio. Atente-se que uma boa agravação não deve ultrapassar três dias.

Agravação longa seguida de lenta melhoria – Uma agravação de várias semanas, a que se seguem pequenos sinais de melhoria, indicam-nos um paciente esgotado, de baixa vitalidade. Devemos evitar a repetição continuada do remédio, sob pena do doente correr riscos desnecessários.

Agravação longa seguida de um declínio do estado geral – Estamos perante um doente incurável. A opção é desistir do simillimum – que apenas o depauperará – e ministrar pequenos remédios de acção curta e pouco profunda, de carácter paliativo.
Agravação muito marcada seguida de curta melhoria – O remédio não é o simillimum, tendo apenas acção paliativa.

Agravação a que se segue o retorno de sintomas antigos – Estamos perante um prognóstico excelente. No máximo, ao fim de um mês os sintomas antigos desaparecem. Se tal não ocorrer, teremos de pensar numa segunda prescrição.

O paciente MELHORA:
Melhora o seu estado geral e local; melhora o seu estado geral e agravam os sintomas locais; melhora o estado geral mantendo-se o desequilíbrio dos sintomas locais ou melhora o estado geral com manifestações de eliminação.

MELHORA O ESTADO GERAL E LOCAL - O doente tem uma cura rápida.
Quer o remédio, quer a dinamização foram bem escolhidos, são similares ao grau dinâmico da doença. Também pode acontecer que a doença esteja num estádio inicial.

MELHORAM OS SINTOMAS DA DOENÇA – Melhoria dos sintomas causa directa da consulta.

Melhoria rápida seguida por agravação – Partindo do princípio que estamos perante o simillimum, então o paciente é incurável. Se não for o simillimum, o remédio limitou-se a exercer uma acção meramente paliativa.

Melhoria na direcção errada – O sintoma inicial desaparece, mas surge um novo bem mais grave. Como exemplo, podemos citar o desaparecimento de uma úlcera da perna, surgindo em seu lugar uma hemoptise. Estas situações aparecem em regra quando o homeopata se limita a prescrever com base nos sintomas locais olvidando a totalidade sintomática. Há que reavaliar o caso, considerando o actual quadro sintomático.

Melhoria com reacção tardia – A “reacção tardia” a que se referem alguns autores, surge entre o 15º e o 26º dia após ser ministrada a dose, tendo uma duração aproximada de 15 dias.
O homeopata deve evitar renovar a dose numa nova potência, ministrando antes, uma de placebo, já que qualquer melhoria sem similitude só muito excepcionalmente ultrapassará dez dias. Daí, que uma melhoria de 15 dias é sinónimo de prognóstico favorável, acabando tal reacção por desaparecer decorridos que estejam os ditos 15 dias de agravamento, com o consequente restabelecimento integral da saúde do enfermo.

APARECIMENTO DE NOVOS SINTOMAS – Quando surge um novo sintoma, precisamos de discernir se se trata de um:

Sintoma patogenésico -  Consultando-se neste caso para identificação um Repertório (v.g. Kent, Ariovaldo Ribeiro Filho), ou uma matéria médica exaustiva (v.g. Clarke, Allen). Tratando-se de tal, acabará por desaparecer em poucas semanas, podendo prescrever-se S.L., evitando-se qualquer outra intervenção.
Também não deixa de ser provável que os sintomas venham a ser demonstrados como elencadores do quadro patogenésico do medicamento por ulteriores experimentações.

Sintoma do quadro evolutivo da doença – Aqui, ficaremos certos que o remédio prescrito não é o simillimum, face ao desenvolvimento do quadro patológico, urgindo uma reavaliação do caso.

Sintoma mais grave do que o inicial - Já vimos esta situação (Melhoria na direcção errada).

Sintoma menos grave que o inicial – Se segue a direcção da cura homeopática, o prognóstico é bom. Um eczema facial que desaparece e surge numa perna (do alto para o baixo); Uma úlcera que desaparece, surgindo uma erupção numa perna (de dentro para fora); Desaparece uma úlcera surgida em 1998, depois uma arritmia com inicio em 1997 e por fim dores erráticas nos membros que se arrastavam desde 1992 (os sintomas desaparecem na ordem inversa do seu aparecimento).

Sintoma antigo que retorna – Também já analisado supra (Agravação a que se segue o retorno de sintomas antigos).

A melhora dura um tempo normal, mas surge um novo conjunto de sintomas – Esta situação conduz a uma nova prescrição, que por sua vez conduz ao aparecimento de novos sintomas e assim sucessivamente, enquanto o doente enfraquece progressivamente. Em princípio, tratar-se-á de doente incurável.

O paciente NEM AGRAVA NEM MELHORA – Neste particular é necessário aprofundar cautelosamente as inúmeras possibilidades atinentes à ausência de êxito:

Pode acontecer que tenha sido esquecida em sede de repertorização a causa etiológica dos padecimentos, cuja importância em sede de casos crónicos é fundamental.

Que a narração dos sintomas seja inexacta, obrigando a uma reavaliação do caso.

A existência de barreiras medicamentosas ou infecciosas anteriores que impedem a acção do remédio, tais como, vacinação, blenorragia.

Taras hereditárias, tais como, blenorragia, sífilis, tuberculose, cancro, o que nos levará à aplicação de nosodos.

Abuso de alimentos ou produtos de elevada toxicidade, como chá, café, bebidas alcoólicas, tabaco, drogas.

Abuso de medicamentos alopáticos. A intoxicação é por vezes tão grande que se torna imperativo receitar o antibiótico, ansiolítico, antidepressivo, corticóide, anestésico, etc. homeopaticamente diluído e dinamizado, na 15ª ou 30ª centesimal (CH).

Má preparação do remédio. Como em tudo, nem todos os laboratórios são fiáveis.

Remédio mal tomado. Os remédios devem ser tomados longe das refeições, directamente debaixo da língua, sem contacto com os dedos ou diluídos em água pura.

Dinamização inapropriada. É fundamental encontrar a dinamização a que determinado paciente responde: uns são sensíveis a uma 9ª CH, enquanto outros necessitam de uma 200 CH ou mais.

Ausência de reacção. Pode ocorrer uma ausência de reacção por parte do doente. Quer no Repertório de Kent, quer no de Ariovaldo, encontramos uma rubrica consagrada a este género de carência.
De realçar, que nalguns pacientes a reacção é de todo oposta: objectivam os sintomas do medicamento ministrado, ou seja, reproduzem a sua patogenesia.

Por outro lado temos de estar atentos ao facto de que alguns remédios agem mais rapidamente que outros. Em casos crónicos, a sua acção pode manifestar-se apenas 30 dias após a toma, enquanto que nos agudos, teremos de ter uma resposta imediata ou nas primeiras horas.

A REAVALIAÇÃO

Se o estado geral do paciente for excelente, o homeopata só muito excepcionalmente deverá modificar a medicação.
Caso o tenha de fazer, como acima se expressou, deverá tomar em linha de consideração uma nova repertorização que inclua, talvez, como guia, o último sintoma que surgiu e pesquisar nos medicamentos disponíveis um complementar ou que siga bem o primeiro, o que impõe a consulta de uma tabela que forneça a relação entre os remédios – v.g. R. Gibson Miller, Clarke.




RELAÇÕES CLÍNICAS DOS MEDICAMENTOS[170]

Na matéria médica existem muitos medicamentos incompatíveis, ou seja, que ministrados antes ou após um do outro, destroem os seus efeitos, por via de acção contrária. A validade desta regra depende do facto do primeiro remédio administrado ter tido alguma influência no caso.
Os remédios são complementares quando a sua acção é idêntica relativamente à sintomatologia do quadro clínico, quando agem no mesmo sentido, terminando o trabalho começado por um outro remédio.
Os que seguem bem outro, suprem as deficiências deste primeiro, podendo mesmo antidotar alguns dos seus efeitos perversos[171].

Os antídotos são essenciais em homeopatia e destroem os maus efeitos do remédio ministrado, na maior parte das vezes por prescrição incorrecta. Antidotam os efeitos químicos no decurso de “envenenamentos” ou os efeitos indesejáveis ocasionados pelo emprego da droga.

Há ainda medicamentos, que exigem um cuidado especial na sua prescrição.[172]




José Maria Alves 





[1] A terapêutica ao tempo de Hahnemann orientava-se pela doutrina dos humores – as doenças eram provocadas pelos maus humores –, que eram purificados através de sangrias, vomitivos, purgas e clisteres.

[2] Ver experimentação.
[3] O Organon da Arte de Curar, como livro de base da homeopatia deve ser cuidadosamente estudado. Aconselha-se ao estudante de homeopatia como primeira abordagem: A Arte de Curar pela Homeopatia O Organon de Samuel Hahnemann / Dr. E.C. Hamly, M.B., Ch. B., M.R.C.G.P. – 1982, 1ª edição da Livraria Roca Ltda., obra que utilizamos e citamos ao longo deste livro, no que toca ao dito Organon.


[4] Discordamos profundamente desta perspectiva na medida em que privilegie a celeridade em detrimento da análise cuidada e exaustiva que deve presidir a qualquer método tendente à cura do paciente encarado como um todo.

[5] Com utilização obrigatória do Repertório Homeopático, como infra melhor se especificará.




[6] Verbi gratia: Matéria Médica Pura, S. Hahnemann; A Cyclopaedia of Drug Pathogenesy, Hughes & Dake; The Encyclopaedia of Pure Materia Medica, T.F. Allen e The Guiding Symptoms of Our Materia Medica, Hering.

[7] É de realçar pela sua importância o Repertório de Kent.

[8] Medicina pela qual se efectuam tratamentos com remédios que produzem efeitos diferentes dos da doença a tratar.

[9] O café que impede ou dificulta o sono à maioria dos indivíduos, é utilizado em doses homeopáticas – doses mínimas – para combater a insónia. 
[10]V.g. Arsenicum Album, Belladona e Mercurius.

[11]Trata-se de uma diluição homeopática que retira a toxicidade ao medicamento, estimulando concomitantemente as capacidades reacionais de auto-cura do organismo.

[12]Dose forte, mas não letal. Verifica-se aqui um efeito de dupla face do medicamento. Como já anotámos, o café que em doses ponderais provoca a insónia, vai curá-la quando altamente diluído.

[13]Conjunto de efeitos desencadeados por um remédio.

[14] Talvez na maior parte das vezes.

[15] Organon § 162.

[16] A Escola Pluralista, também conhecida por Escola Francesa, utiliza vários medicamentos simultaneamente ou em intervalos de tomas.

[17] A Escola Complexista ou Escola Alemã, utiliza em regra, os complexos, constituídos por vários medicamentos combinados na mesma solução excipiente.

[18] Organon § 119. Para que se possam conhecer os efeitos dos medicamentos, impõe-se que só seja receitado um de cada vez. Só assim se poderá avaliar a reacção do doente ao medicamento. Caso se efectue a prescrição de uma maior quantidade de remédios, à avaliação dos efeitos produzidos no paciente acresce a dificuldade de determinar qual dos medicamentos homeopáticos está a produzir um efeito real e benéfico no enfermo. Com os complexos homeopáticos a prescrição simplifica-se, pelo facto de os medicamentos serem estudados – alguns já se encontram patenteados acerca de 50 anos – para patologias específicas. Pecam por se reportarem às patologias num quadro teórico transportado e adaptado aos princípios da Medicina Ortodoxa, violentando o princípio fundamental de que em homeopatia não há doenças, mas doentes.    

[19] Ou o animal, já que existe uma Medicina Homeopática Veterinária.

[20] O equilíbrio do sistema orgânico integral resulta da interacção entre os vários sub-sistemas.

[21]Actualmente, pelo menos em território Europeu, tende-se à utilização da homeopatia mediante os princípios da Medicina Ortodoxa. É inelutável, que o contributo da prática médica ortodoxa é de um valor inestimável para a homeopatia, embora não seja fundamental, mas o transporte ou impregnação do corpo teórico da Homeopatia pelo da Medicina Ortodoxa só faz com que se passe a ver a doença em detrimento do doente. O complexismo é utilizado maioritariamente de acordo com as patologias tal como são conhecidas na Medicina Ortodoxa. Tal facto, embora não possa permitir que a escolha do medicamento, por muito criteriosa que seja, determine a perfeita cura do paciente – só quando se escolhe o medicamento visando o doente e não a doença é que se pode ter maior certeza de promover a cura e o restabelecimento do enfermo –, permite uma rápida actuação no quadro sintomático imediato, facultando alívios que propiciam no tempo, a ulterior pesquisa do simillimum. Mas é de não esquecer, que embora a utilização dos complexos homeopáticos possa ser aliciante pelo pragmatismo e rapidez de prescrição, o que se cura, ou tende a curar, é o doente e não a doença. 

[22] Que englobam as sensações, sonhos, ilusões e delírios.

[23] Envolvem os transtornos causados por acontecimentos, traumáticos ou não.

[24] Medo, depressão, ansiedade, astenia, agitação, inquietude, memória, cognição, capacidade de valoração dos factos, inteligência, entre outros.

[25]Sede, apetite, transpiração, sono, fezes, urina, etc.

[26]Por exemplo, quisto no ovário esquerdo.

[27] É ilusória a percepção daquele que só vê as partes.

[28] Perfeito ou imperfeito.

[29] De referir as Korsakovianas, que podem atingir o valor de 100.000 – 100.000 K –, que são prescritas fundamentalmente para sintomas mentais.

[30] Este processo intitula-se de dinamização.

[31] Entre a 9ª e a 12ª, atentas as diferenças de peso molecular de cada substância.

[32] Veja-se Revista Port. Farm. Vol. XLIV, nº3 – 1994.

[33] Para Bastide e Boudard, tratar-se-ão de sinais electromagnéticos de reduzida intensidade – sinais não moleculares – veiculadores de informações sob a forma de imagens de patologias – patogenesia do medicamento –, espelhos da sintomatologia apresentada pelo paciente, inteligíveis para o organismo deste, que apresenta a peculiar característica de negativizar o seu próprio quadro sintomático.

[34] Hahnemann considera como força vital a vida que anima um ser vivo. Toda a globalidade psicossomática da entidade viva estruturada no interior de um invólucro, que sem os compostos que o “animem”, nada mais é que um cadáver.

[35] Organon § 225. Para estes casos, preconiza como tratamento, o homeopático antipsórico – ver Diáteses –, associado a um modo de vida cuidadosamente regulado.

[36] Organon § 225. O doente aparentemente curado por intermédio do simillimum, deve ser submetido a um tratamento antipsórico radical a fim de que jamais caia em tal estado de doença mental.

[37] Organon § 149.

[38] Organon § 253. Um aumento do conforto, da serenidade e de certo modo, da alegria com retorno ao estado natural de equilíbrio, é um índice seguro de melhoria. 

[39] § 36 do Organon.  Não se verifica uma aniquilação da enfermidade mais recente, mas sim, uma total inabilidade desta em penetrar no organismo.

[40] § 38 do Organon.

[41] Força Vital.

[42] § 39 do Organon. “ A Natureza não consegue curar uma doença com a instalação de outra, mesmo que mais forte se a nova doença for diferente daquela já presente no organismo.”

[43] § 45 do Organon.

[44] § 75 do Organon.

[45] “Emanações que outrora eram consideradas, erradamente, como causadoras de doenças e que provinham de detritos orgânicos em decomposição ou de doenças infecto-contagiosas e cujos efeitos se podem assemelhar,  em parte, à acção microbiana no organismo”. Embora esta seja a definição que comumente se pode encontrar num dicionário, a realidade doutrinária homeopática subjacente ao conceito é muito mais vasta do que aquela que a mera descrição linguística pode denunciar. Efectivamente, Hahneman empregava o termo miasma no mesmo sentido com que ele é definido actualmente, mas a sua conceptualização do fenómeno miasmático era bastante mais abrangente do que a priori se pode pensar. Das palavras do Organon pode depreender-se, que para Hahneman, miasmas são estigmas de infecções contraídas e suprimidas num passado remoto pelos nossos ancestrais. Estes estigmas são perpetuados pela linha genética, condicionando o modo reacional de um organismo, que pode apresentar uma predisposição particular para contrair certas doenças e manifestar determinada realidade sintomática. Este eminente fundador homeopata, desconhecendo os actuais conceitos de genética, microbiologia, virologia e bacteriologia, desenvolveu um corpo doutrinário capaz de explicar a perpetuação na linhagem genética de marcas resultantes de infecções bacteriológicas, e explica inclusive, as micromutações cromossómicas que sofremos ao longo das décadas ou séculos e que reflectem as adaptações aos meios patológicos. Na realidade é mais fácil perceber as inequívocas macromutações – adaptações – aparentemente estáveis, que a nossa espécie sofreu ao longo de milénios, do que as transformações que os seres experimentam num espaço de tempo circunscrito a algumas décadas ou séculos.

[46] Diátese é um conceito que surgiu com a Escola Pluralista, correspondendo à doença hahnemaniana crónica.

[47] Principalmente devido às recentes concepções das Escolas Pluralistas que o consideram lacunar.

[48] Da leitura atenta do capítulo do Organon referente aos miasmas, depreende-se que Hahneman acreditava numa perpetuação dos efeitos miasmáticos. O § 81 do Organon denuncia que Hahneman não descurou – embora não conhecesse –  o conceito de hereditariedade e de micromutação dos genes nos organismos vivos face a agentes patogénicos exógenos.

[49] Organon § 202/205. A supressão de um eczema na criança pode conduzir a ulteriores crises asmáticas. Hahnemann defendia que não se devia aplicar nas enfermidades locais, crónicas ou agudas, externamente, qualquer remédio, nem mesmo o homeopático correcto (Organon § 194; § 195). Este conceito Hahnemaniano, embora teoricamente correcto, deve ser interpretado à medida da experiência clínica do homeopata, dos efeitos das diversas substâncias ou remédios no organismo, da patologia em causa ou da idiossincrasia do enfermo. A aplicação tópica de uma pomada de Arnica para um traumatismo físico recente, dificilmente terá complicações no organismo do paciente.

[50] Não confundir esta situação com aquela que pode surgir com administração do simillimum imperfeito. Aqui, o paciente é acometido por novas patologias e não por sintomas acessórios como se poderá constatar mais adiante.

[51] Cada uma das categorias engloba os pacientes cuja reacção patológica é análoga, independentemente do agente agressor.

[52] A Psora derivará de uma intoxicação crónica – endógena ou exógena –.

[53] A Sicose, das consequências negativas das vacinações – v.g. a antivariólica –, blenorragia mal tratada e de todos os processos mórbidos repetitivos e rebeldes.

[54] O Luetismo é uma modalidade reacional do organismo em face de agentes agressores diversos, caracterizada por manifestações semelhantes à da infecção provocada pelo Treponema palidum. Nos tempos antigos a sífilis era considerada a causa da Luese.

[55] Nebel exerceu Medicina Homeopática na Suíça, tendo optado pela Escola Pluralista.

[56] Em 1946 publica “Os tuberculínicos e seu tratamento homeopático”, e em 1952 “Os cancerínicos”.

[57] Conjunto de manifestações físicas e psíquicas, bem como orientações mórbidas gerais imprimidas ao organismo por uma tuberculose que remonta a uma ou mais gerações.

[58] Forma nativa que susceptibiliza o organismo na direcção do risco oncológico.

[59] Ao lado de Sulfur, os medicamentos principais da Psora são: Arsenicum Album, Lycopodium e Nux Vomica. A Calcarea Carbonica é o medicamento constitucional e o nosodo é o Psorinum. (Constituição é um conceito essencialmente pluralista).
Ao lado da Thuya – a Thuya é a Sicose; a Sicose é a Thuya – , Dulcamara e Natrum Sulfuricum. O constitucional é a Calcarea Carbonica e o nosodo é o Medorrhinum.
Para a Luese temos como principais ao lado de Mercurius Solubilis: Argentum Nitricum, Lachesis e Phytolacca. O constitucional é Calcarea Fluorica e o nosodo é o Luesinum.
No Tuberculinismo, encontramos Phosphorus, Natrum Muriaticum, Pulsatilla e Sépia. O constitucional é a Calcarea Phosphorica e o nosodo é o Tuberculinum.
A série cancerínica é a mais recente e não está bem definida. O nosodo é o Carcinosinum. Os três grandes cancerínicos são: Thuya, Conium e Hydrastis.

[60] Os que constituem o modo reacional daquele paciente.

[61] Mas apenas um de cada vez. Recordamos que as Escolas Pluralistas preconizam a utilização simultânea de vários medicamentos e que as Complexistas misturam várias substâncias na mesma solução excipiente. Embora a prática clínica possa indicar a existência de resultados favoráveis mediante a particular prescrição terapêutica destas duas Escolas, aconselhamos a que os princípios basilares da homeopatia sejam inteiramente respeitados, até que a experiência clínica pessoal alicerçada os conteste. 

[62] As diáteses puras ou quase puras só surgem em pediatria.

[63] Um mínimo de três, é o número requerido para que haja identificação diatésica.

[64] Organon § 103.

[65] Os nosodos são produtos patológicos tecidulares ou extraídos de secrecções mórbidas de origem vegetal, animal ou humana, diluídos e dinamizados segundo as técnicas da farmácia homeopática, administrados a partir da 6ª diluição decimal.
Os métodos bioterápicos foram desenvolvidos em França, paralelamente à homeopatia.
O Psorinum é a diluição da substância sero-purulenta contida na vesícula da sarna.
O Medorrhinum é a diluição da secreção purulenta blenorrágica.
O Luesinum é o lisado das serosidades treponémicas de cancros primitivos.
O Tuberculinum é a tuberculina bruta obtida da mycobacterium tuberculosis.
O Carcinosinum é preparado a partir de nódulos cancerosos, particularmente do seio – adverte-se que não é um remédio do cancro, mas da diátese cancerínica –.
É necessário reconhecer que apenas uma pequena parte dos bioterápicos podem ser considerados medicamentos homeopáticos, porquanto a maioria carece de experimentação, de patogenesia. Entre os que assim são reconhecidos, estão os supra mencionados.

[66] O conceito de constituição tem o seu domínio praticamente limitado à Escola Pluralista.

[67] Que elaborou também a teoria da drenagem.

[68] Para o estudo desta matéria, é fundamental a obra: “As diáteses homeopáticas”, de Max Tétau, Editora Andrei, 1998.

[69] Síndrome Disfórica Pré-Menstrual.
[70] A matéria médica homeopática é acima de tudo um registo de sintomas.

[71] Se um doente apresenta todos os sinais mais característicos do Arsenicum Album – v.g., medo da morte com agitação e exaustão, agravamento periódico dos sintomas, dores sentidas com sensação de queimação, agravamento nocturno por volta da meia-noite – e os sintomas da doença aguda estão delimitados num outro medicamento, deve ser aquele e não este a ser prescrito.

[72] Hahnemann terá respondido certa vez a um paciente que o inquiriu sobre a sua doença e prescrição homeopática: “O nome da sua doença não é problema meu, e o nome do medicamento que lhe dou não é problema seu”.

[73] Um sinal característico é o que caracteriza, desculpe-se a redundância, o paciente e que em regra não é comum à doença.

[74] Ver Repertorização.

[75] Alguns homeopatas quando constatam num paciente a existência de um sintoma raríssimo, procedem sem mais à prescrição desse medicamento. No entanto, tal procedimento é contrário aos princípios da doutrina homeopática. A função do Keynote deve ser meramente indicativa e auxiliar do diagnóstico diferencial.

[76] Clarke afirmava que se um paciente lhe dissesse “Há uma coisa que não sei se lhe devo contar, doutor”, não descansava enquanto este não lhe contasse de que realmente tratava a tal “coisa” – Receituário Homeopático, Editorial Martins Fontes, pág. 68 –. Pesquisava assim, os sintomas mais peculiares e absurdos.

[77] Alguns sintomas são mais importantes que outros e devem ser valorizados, quer em sede de repertorização, quer de prescrição. A hierarquização que atribuímos aos sintomas relevantes pode traduzir-se no esquema seguinte:

Sintomas etiológicos: Transtornos por...; Todos os factores desencadeadores do quadro sintomático actual.
Sintomas e sinais do quadro clínico/homeopático individual:

Mentais
Sintomas da imaginação: Sensações, ilusões, delírios e sonhos.
Emocionais
Volitivos
Intelectivos

Gerais: transpiração, sono, sede, apetite, febre, características das eliminações, etc.

Locais: cabeça, peito, estômago, etc.

Sintomas extraídos da história clínica: transtornos funcionais – comuns e patognomónicos – e lesões orgânicas.

Nota: Os sintomas pertencentes ao grupo II deverão ser sempre bem modalizados. Este grupo, aonde for aplicável, pressupõe a inspecção, ou exame físico, levado a cabo pelo homeopata.

[78] A Síndrome Mínima de Valor Máximo é constituída por 3 a 5 sintomas caracterizadores da individualidade do paciente, inscritos em rubricas com um número médio de medicamentos – entre 50 a 80 –, como veremos infra.

[79] A soma de todos os sintomas em cada caso individual de doença deverá ser a única indicação, o guia isolado para nos orientar quanto à escolha de um determinado remédio (§ 18 do Organon). O simillimum resulta da comparação entre os sintomas da doença, os sinais do doente e os sintomas dos medicamentos exibidos nas matérias médicas.

[80] Deve descrever exactamente o que sente e de que sintomas está mais ansioso de se libertar. Se for acompanhado, as pessoas que o rodeiam relatam as suas queixas, o seu comportamento e o que percebem nele, enquanto o homeopata vê, ouve e observa o que há no doente de fora do comum (§ 84 do Organon). É necessário que o homeopata não se deixe induzir em erro pelos relatos das pessoas que possam acompanhar o enfermo (§98 do Organon).

[81] Quando se relacionam os sintomas um abaixo do outro, é-nos permitido escrever ao seu lado os remédios que os produzem conforme indicação repertorial. Tanto Clarke como Boeninghausen, prescreviam, em regra, ao paciente o medicamento que correspondesse ao maior número de sintomas.

[82] O homeopata interroga-o sobre a localização da dor ou sensação, do horário em que ocorre, como agrava ou melhora, etc.

[83] Deve-se procurar traçar um perfil psicológico do doente.

[84] Ver Diáteses.

[85] A modalidade homeopática determina em que circunstâncias melhora ou agrava o sintoma ou a totalidade sintomática do paciente. São as modalizações que tornam o sintoma característico.
Alguns exemplos:

Alimentares: agravações ou melhoras por efeito de determinados alimentos ou bebidas.
Atmosféricas e ambientais: andando ao ar livre, desejo ou aversão dos grandes espaços, lugares fechados, chuva, neblina, humidade, tempestade, sazonalidade, luz – natural ou artificial –, ruído, música, odores.
Banho e lavagens: frio, quente, mar, aversão a lavagens.
Corpos celestes: Sol, Lua, estações do ano.
Horárias: dia, manhã, tarde, noite, anoitecer, uma qualquer hora específica.
Lateralidade: direita, esquerda.
Locomoção e posição: andar, andar de carro, barco, correr, dançar, deitado, sentado, em pé, de joelhos, curvado.
Movimento e repouso: no começo do movimento, durante ou após o mesmo, deitado ou sentado.
Roupas: apertadas ou não, cobrir-se, descobrir-se, nu.
Temperatura: calor, frio, mudança.

[86] Esta perspectiva global do paciente compreende inúmeros aspectos que serão discutidos na parte respeitante ao interrogatório propriamente dito, embora se destaquem alguns de compreensível importância: aspecto do paciente, movimentos, gestos com a face, modo de falar, grau de lucidez mental, odor, etc.

[87]Segundo o Dicionário de termos técnicos de Medicina e Saúde de Luis Rey: “Reminiscência, recordação. Relato feito pelo paciente (ou alguém responsável por ele) sobre os antecedentes, detalhes e evolução da sua doença até ao momento do exame médico; história pregressa da doença”. Num sentido mais lato, o conceito de anamnese engloba a fase de interrogatório propriamente dita. Embora não resultem de relato espontâneo por parte do paciente, os sinais recolhidos por via de interrogatório – desde que o homeopata não sugira as respostas ao doente –  assumem por defeito a validade de sintomas.

[88] Os dados recolhidos durante esta fase devem-no ser na linguagem do paciente, já que as patogenesias foram originalmente escritas na linguagem corrente empregue pelos voluntários das experimentações. Revelar-se-á infrutífero e contraproducente tentar empregar uma linguagem mais erudita ou técnica nos relatórios e fichas clínicas dos doentes. 

[89] O factor etiológico – ou biopatográfico –  é o acontecimento que originou o estado patológico. Pode ser hereditário – causa diatésica –, ter origem física – exposição ao frio húmido ou frio seco – ou psicológica – desgosto de amor, ciúme, medo ou pânico –.

[90] Este deve ser efectuado com base nos sintomas que o paciente não aprofundou ou que sejam dúbios para o homeopata. Proceder-se-á há recolha de dados que consolidem e especifiquem a narração do paciente (§87 e §89 do Organon). O bom interrogatório, também depende da atenção dada a pormenores, ou factores predisponentes do quadro patológico, que o paciente não mencionou – por embaraço, indolência, falta de disposição ou esquecimento – e que o homeopata já conhece como essenciais a um diagnóstico fiável e correcto, especialmente em sede de doença crónica (§93 e §94 do Organon).

[91] Podem-se preencher estes dados logo à chegada do paciente ao consultório – atitude mais corrente –, permitindo que este descontraia e se familiarize com o homeopata e o espaço da consulta.

[92] Aqui se incluem todos os órgãos nobres abrigados na região abdominal: baço, fígado, intestinos, vesícula biliar, etc.

[93] Aqui se incluem as modalidades de agravamento ou melhora mais gerais.

[94] Os antecedentes familiares compreendem: falecimentos, patologias e estados mórbidos dos ascendentes e colaterais do paciente.

[95] Estes englobam: antecedentes patológicos e tóxicos, imunizações, alergias medicamentosas, outros tipos de alergia, tratamentos actuais. Não convém descurar os factores psicológicos que de alguma forma possam ser categorizáveis como antecedentes pessoais.  

[96] Neste momento questiona-se a paciente sobre: menarca, menopausa, ciclo menstrual – duração e frequência –, dispareunia, dismenorreia, síndrome pré-menstrual, incómodos pélvicos, leucorreia – odor, cor, consistência, quantidade –, gravidezes – abortos, vivos –, partos – cesarianas –, tratamentos hormonais e contraceptivos.

[97] Inclui: pulso, temperatura, pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória.

[98] Nesta fase podem avaliar-se: constituição – fluórico, carbónico, fosfórico –, nutrição – normal, caquexia, magreza, desnutrição, excesso de peso, obesidade –, estado sensório – estupor, confuso, alerta, obnubilado ou outros dados pertinentes –, postura e atitude – colabora, não colabora, etc. –, hidratação – normal, desidratação leve, moderada ou grave –, perfusão – palidez, cianose – , desenvolvimento ósseo e muscular – normal ou anormal –.

[99] Os restantes sinais recolhidos na fase de exame podem-se associar a determinadas questões do período de interrogatório que se susceptibilizem de confirmação empírica.

[100] Kent e alguns dos seus alunos experimentaram cerca de 28 medicamentos.

[101]Fragmenta de Viribus Medicatorum Positivis in Sano Corpore Humano Observatis”, obra composta por dois volumes, em que o primeiro expõe a patogenesia de 27 medicamentos e o segundo pode ser qualificado o primeiro repertório de sintomas dispostos alfabeticamente, com referências aos constantes no primeiro volume.

[102] Kent nasceu em 31/03/1849, obtendo o diploma em medicina aos 25 anos. Converteu-se à homeopatia no seguimento da cura operada por um prático homeopata na sua segunda mulher e iniciou os seus estudos lendo o Organon de Hahnemann. Para além dum Repertório com 1423 páginas, foram publicados  entre outros, “Lectures in Homeopathic Philosophy” e “Lectures on Homeopathic Materia Medica”.

[103] Boenninghausen nasceu em 12/03/1785, na Holanda, licenciando-se em Direito em 1806. Possuía uma cultura diversificada, que abrangia a botânica, a agricultura e a medicina. Em 1828, um amigo que se havia tornado homeopata, cura-o de uma tuberculose quando as suas esperanças de vida já tinham terminado. A Homeopatia ganhou assim um adepto fervoroso e Hahnemann o mais dedicado discípulo, que produziu um intenso trabalho literário.
[104] “Dictionary of Practical Materia Medica”, Homoeopathic Book Service, 1991 – a primeira edição é do ano de 1900 –, três volumes com um total de cerca de 2.500 páginas.

[105] É fundamental para a compreensão da sua estrutura e funcionamento o estudo da parte introdutória da obra – páginas 19; 20; 21 e 22 –.
[106] Ex: Falta de apetite – 207 medicamentos; Medo, apreensão, pavor – 238 medicamentos; Dor de cabeça – 273 medicamentos.

[107] Ex: Medo de aranhas – 1 medicamento; Medo de sair fora de casa – 2 medicamentos. Como já se disse, é desaconselhável a prescrição baseada em Keynotes, cuja função deve ser meramente indicativa e (ou) sugestiva.

[108] O ideal serão as rubricas que compreendam entre 50 a 80 medicamentos. Aquelas que possuam mais ou menos medicamentos servirão como orientadoras da repertorização.

[109] Como veremos adiante, as patologias agudas facilmente vicariam progressivamente tornando-se crónicas. Cremos que na coexistência de um quadro com queixas de carácter agudo e crónico, se deve dar primazia à cura dos sintomas agudos, já que, o que importa é o bem estar imediato do doente. De qualquer modo, a cura “a longo prazo” não deve ser ignorada, e a acção medicamentosa escolhida pelo homeopata dirigida igualmente para a supressão da enfermidade crónica.
[110] Os medicamentos resultantes da repertorização podem ser traduzidos quer por “cobertura” quer por “pontuação”. Cobertura significa que determinado medicamento engloba um número específico de sintomas que o homeopata repertorizou – o número de sintomas cobertos pelo medicamento determinam a sua importância –. Pontuação refere os pontos acumulados pelo medicamento, atendendo ao “Grau de pontuação” (conceito já esclarecido anteriormente) que este possui face a determinado sintoma repertorizado – v.g. Boca, Calor – Belladona (Grau I) / Aconitum (Grau II) / Mercurius Solubilis (Grau III) –. Quantos mais pontos forem atribuíveis ao medicamento, mais importante ele será.

[111] Considera-se como Sintoma Director aquele que é o principal de um caso e que limita a pesquisa repertorial dos restantes sintomas aos medicamentos que o englobam nas suas patogenesias.

[112]  Referimos ainda a constituição do Sintoma Director através de dois outros métodos para além daquele em que se emprega o sintoma simples. O primeiro, refere-se à elaboração do Sintoma Director mediante a soma de dois ou três sintomas marcantes do caso – “... como no caso de rubricas afins importantes e que possuam poucos medicamentos” –. No segundo método, já não são sintomas que se somam, mas sim rubricas marcantes e indubitáveis que se cruzam, geralmente duas ou três. Estas possuem um número razoável de medicamentos (mais de 50) e são: “... todas igualmente importantes, indispensáveis, sem relação directa de afinidade e que seriam utilizadas em algum momento da repertorização.” (Ariovaldo Ribeiro Filho, Conhecendo o Repertório & Praticando a Repertorização, Editora Organon, páginas 165 a 167).  
[113] Ver Conhecendo o Repertório & Praticando a Repertorização de Ariovaldo Ribeiro  Filho, página 157.
[114] Há ainda que contar com a prática clínica e com a intoxicação voluntária ou involuntária.

[115] § 108 do Organon.

[116] § 141 do Organon.

[117] § 107 do Organon.

[118] § 128 do Organon.

[119] Alimentos nutritivos e simples como: ervilhas frescas, vagens, cenouras. Abstenção de saladas, raízes, sopas de vegetais, bebidas alcoólicas, café, chá entre outros (§ 126 do Organon).

[120] Evitando os conflitos psicológicos, a exaustão física e mental (§ 126 do Organon).

[121] § 130 do Organon.

[122] § 116 do Organon.

[123] § 117 do Organon: Isto significa que a pessoa apresenta uma constituição física especial, que conquanto sadia, possui uma disposição de ser levada a uma condição patológica maior ou menor por certas coisas que parecem não produzir qualquer impressão ou alteração na maioria dos indivíduos. Essa influência parece actuar apenas em pequeno número de constituições sadias; tais agentes, no entanto, deixam a sua impressão em todo o organismo sadio. Isto pode ser demonstrado quando eles são utilizados como remédios homeopáticos, visto serem eficientes em todos os doentes com sintomas semelhantes aos que eles parecem produzir apenas nos chamados indivíduos idiossincrásicos. 

[124] Não queremos com isto dizer que se deve decorar ou memorizar a Matéria Médica. Deve-se saber manuseá-la e entender a sua estrutura. A memorização resulta e surge com os anos de prática clínica.

[125] Ex: Matéria Médica Pura de Hahnemann.

[126] Ex: The Encyclopaedia of Pure Materia Medica – Allen.

[127] Ex: Dictionary of Practical Materia Medica – J.H. Clarke. A matéria médica de Clarke sintetizou os conhecimentos patogenésicos de Allen, os clínicos e toxicológicos de Hering, bem como os conhecimentos adquiridos pelo autor durante décadas de exercício clínico.

[128] É inegável que existem medicamentos cuja amplitude de acção é enorme.

[129] Preâmbulo da Matéria Médica Pura.

[130] Aquele em que somente uma parte dos sintomas da doença sob tratamento é encontrada na descrição da patogenesia, mas que se afigura como o mais adequado entre todos os que se encontram em apreciação diferencial (§ 162 do Organon).

[131] Denominam-se sintomas acessórios do remédio não totalmente adequado (§ 163 do Organon).

[132] É sempre necessário fazer um esforço no sentido de se encontrar o medicamento que produza artificialmente os sintomas ou a doença e que imite com a maior perfeição possível os do doente.

[133] Hahnemann, não defendia a utilização simultânea de medicamentos (§ 273 do Organon) e embora preconizasse a utilização alternada de substâncias não o fazia em número excessivo. Infelizmente, faz-se utilização abusiva da quantidade de medicamentos que se ministram a um paciente na tentativa de curar as suas enfermidades. Crê-se que o emprego concomitante de um grande número de medicamentos, aparentemente complementares, pode solucionar o quadro patológico com maior rapidez. Frequentemente, o que sucede é que pela adopção desta postura, de pseudoceleridade, o homeopata incorre na inconsequência de empregar medicamentos antagónicos ou de não conseguir controlar a acção que cada um exerce no organismo do paciente. Deixa de saber quais os medicamentos que produzem sintomatologia acessória e o controlo da evolução da cura pode ser comprometida. Resta ainda o risco da iatrogenia.  ( vide a este respeito o § 274 do Organon ).  

[134] Regra do tripé.

[135] Sintomas não previamente observáveis na doença que podem ser moderados, sempre que a dose do medicamento seja suficientemente diminuta (§ 163 do Organon) ou graves, impondo nesta última circunstância a reapreciação do caso (§ 167-168 do Organon).

[136] Acrescentando-se aos sintomas originais os recentemente surgidos.

[137] § 170 do Organon.
     § 169 do Organon – “Na primeira avaliação de uma doença, verificamos por vezes que a totalidade dos sintomas não pode ser coberta eficientemente pelos elementos de doença de um medicamento só, mas que dois medicamentos podem completar-se e adequarem-se. Quando isso acontece e o mais adequado dos medicamentos for usado em primeiro lugar, não é prudente passar para o segundo sem reavaliar o paciente. O medicamento que fora considerado segunda opção poderá não ser adequado aos sintomas que restam após o uso do primeiro. Um outro remédio adequado deverá ser seleccionado para combater esse novo conjunto de sintomas observados no novo exame”.

[138] Se a doença se inicia com uma cefaleia, seguida por náuseas e vômitos e por fim febre, será este último sintoma o primeiro a desaparecer, depois as náuseas e vômitos e por fim, a cefaleia.

[139] Se durante o tratamento os sintomas físicos desaparecem, prevalecendo um estado mental alterado, haverá que desconfiar da escolha do medicamento e reavaliar o caso clínico.
[140] As atenuações das substâncias sólidas, praticamente insolúveis, são obtidas por trituração, passando-se à forma líquida a partir da quarta concentração, sendo a partir daí realizadas as operações segundo os princípios das diluições hahnemanianas.

[141] Inexistindo uma matéria médica que contenha as patogenesias de todos eles.

[142] São as centesimais que utilizamos na nossa prática clínica.

[143] Estas doses únicas de glóbulos podem ser substituídas pela ingestão de 12 grânulos.

[144] A forma líquida permite um pequeno acréscimo de dinamização a cada toma.

[145] Têm-se empreendido vários estudos sobre a constituição e acção da medicação homeopática, mas a comunidade científica internacional considera os resultados destes estudos inconclusivos e precários.

[146] § 155 do Organon. Escreveu ainda (§ 29 do Organon): “Uma doença artificial semelhante e mais forte é posta em contacto e ocupa o lugar da natural, semelhante e mais fraca. A força vital é então compelida instintivamente a dirigir grande quantidade de energia contra essa doença artificial. Devido à duração mais curta da acção do agente medicinal que agora afecta o organismo, a força vital logo sobrepuja a doença artificial. Como na situação inicial o organismo já fora aliviado da doença natural, ele é finalmente libertado da artificial medicamentosa e pode então prosseguir de maneira sadia”.

[147] Mesmo o vegetal.
[148] § 278 e 279 do Organon.

[149] Os unicistas usam em regra as altas diluições.

[150] § 277 do Organon.

[151] § 246 do Organon.

[152] § 247 do Organon. A alteração das doses ou da potência nas tomas sucessivas em casos crónicos é fundamental. Explicamos agora, que a cada dose ingerida, o medicamento homeopático vai-se deparar com a força vital, não no seu estado original, mas sim alterada pela acção da dose anterior. Deste modo, uma dose do medicamento dinamicamente similar à anterior, não produzirá efeitos terapêuticos porque a força vital se encontra expectante face a nova potência ou dose. O quadro do paciente poder-se-á deste modo manter ou até mesmo agravar.

[153] Frisamos que esta é a nossa perspectiva e a dos unicistas puros. Caso o leitor enverede por uma doutrina pluralista este conceito susceptibiliza-se de adaptações interpretativas.

[154] Nas altas diluições o espaçamento entre a administração das doses deve ser aumentado.

[155] Na doença aguda podem preferir-se as baixas diluições ministradas a pequenos intervalos, inversamente proporcionais à intensidade dos sintomas – ex: de 24 em 24 horas; ½ em ½  hora; ¼ em ¼ de hora e até de 5 em 5 minutos –, espaçando-se as doses em função das melhoras.

[156] O efeito dos medicamentos homeopáticos no tempo, depende do próprio medicamento, do paciente e da diluição. Pode dizer-se, grosso modo, que em média as doses baixas – até 5 CH – têm um efeito de cerca de 4 horas, as médias – 5 CH e 9 CH – de 1 dia, e as altas – superiores a 9 CH – de uma semana ou mais.

[157] Só se repetirá a dose caso os sintomas melhorem ou se mantenham inalteráveis. Caso surjam sintomas acessórios ou o quadro clínico agrave dever-se-á proceder à reavaliação da prescrição.

[158] Deve também estar atento ao facto de que a repetição continuada de uma substância pode gerar uma doença medicamentosa grave – iatrogénica –, cuja única possibilidade de cura ou minimização sintomática é o recurso a substâncias antídotas.

[159] Existem ainda as pomadas e os unguentos, estes de fabrico mais recente do que as outras formas medicamentosas.

[160] É de referir que esta posologia é meramente indicativa e depende de todos os factores acima mencionados, mas a excepção depende da regra e esta é determinada pela forma posológica que mencionamos.

[161] Todos estes valores veiculados pela escola pluralista são meramente indicativos.
[162] § 157 do Organon – “ Um medicamento homeopático causa geralmente discreta piora imediatamente após sua ingestão e que dura de uma a algumas horas. Esta acção do remédio é tão semelhante à doença original que parece que o paciente piorou da sua própria doença. Quando a dose for excessiva, o agravamento poderá durar um número considerável de horas. O agravamento nada mais é do que uma doença medicinal externamente semelhante e que excede em potência a afecção original.”

[163] § 156 do Organon.

[164] Que se graves e muito incomodativos terão de ser antidotados.

[165] § 158 do Organon. É de referir que qualquer agravamento deve ser acompanhado de uma sensação de bem estar geral demonstrada pelo enfermo. Salienta-se que independentemente da agravação experimentada,  o quadro mental do paciente deve ser positivo e indicador de melhoras.

[166] § 23 do Organon.

[167] § 159 do Organon.

[168] § 161 do Organon.

[169] § 161 do Organon (...) “ Quando se empregam no combate a uma enfermidade de longa duração, remédios de acção duradoura, não deve surgir tal piora caso o medicamento cuidadosamente escolhido for dado na dose adequada. Em tais circunstâncias qualquer agravamento só surgirá no final do tratamento quando a cura já estiver quase que completamente terminada.”
[170] Ver infra a terceira parte.

[171] Se um medicamento deixar de fazer efeito, devemos procurar o que lhe sucede com êxito. No Dictionary of Practical Matéria Medica de John Henry Clarke, encontramos na maior parte das substâncias descritas um item denominado “Relations” – Relações Clínicas –, donde constam nomeadamente:

Comparação entre medicamentos.
Antídotos.
Remédios aos quais a substância segue bem.
Remédios que seguem bem à substância.
Similares ou compatíveis.
Incompatíveis.


[172] Ver cuidados especiais de prescrição, na terceira parte deste livro.




José Maria Alves 





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